Coluna Alternativa A: Imagem não é nada!

70 anos de TV no Brasil

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Como aprendemos? Essa é uma das mais frequentes questões postas em quaisquer cursos de pedagogia, congressos de educação ou sala de professores. Há os sempre lembrados diversos estilos cognitivos: uns são auditivos, outros visuais, outros ainda precisam escrever para aprender, por serem motores. Em inglês, o termo decorar é by heart (de coração), igualzinho em português que vem do Latim cuore. Aquele que aprende com o coração não se esquece do conteúdo aprendido. Paulo Freire sempre nos lembrava disso.

Minha geração cresceu sobre a dúvida do que seríamos quando crescêssemos por sermos produto da massificação televisiva. Ouvia frequentemente meus pais bradarem que TV em excesso fazia mal a saúde, embora o primeiro aparelho tivesse chegado em casa quando eu já tinha treze anos. A preocupação dos pais de hoje é o celular. O discurso é mesmo.

O fato é que, no Brasil, a TV chegou bem antes dos meus treze anos e trouxe consigo a rapidez do ato imagético e a banalidade da reflexão. E lá se vão 70 anos dela.

Para entender o que eu digo, vamos voltar no tempo. A primeira vez que o Brasil se descobriu maduro e pronto para consumir criticamente arte e literatura em maior escala – diga-se não só pelas elites – foi com o equilíbrio da segunda e da terceira gerações modernistas. A quebra de paradigmas da Semana de 22 serviu de embate, rusga e contestação, mas a segunda e a terceira gerações de Tarsila, Rachel de Queiroz, Pagu, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector nos preparava para ler cada vez mais e melhor. E, com dor e sofrimento, pois o conhecimento é, na maioria das vezes, árduo. João Cabral e Caetano nos mostraram que boa literatura e boa música são trabalho e não talento simplesmente.

É claro que poderíamos argumentar que já havíamos passado por um Machado que cortara as entranhas da sociedade brasileira e desnudara suas nuances de favores e relações promíscuas. Mas os modernos chocaram e chamaram à atenção da sociedade para si mesmos e para como a arte e a leitura crítica poderiam mudar a nossa vida.

Mas o que a TV tem a ver com isso? Pois bem, quando estávamos prontos para ler de maneira mais crítica e madura, chegou a TV e jogou tudo fora. Com um modelo importado dos EUA, vimos uma TV meramente comercial nascida para visar lucro e sem escrúpulos ou preocupações em câmbios sociais. Assis Chateaubriand, em seu discurso de inauguração da primeira antena de TV, no Brasil, fez menção apenas a políticos e empresas, já demonstrando como deveria ser a nossa relação com o tubo. O modelo Europeu – não de toda Europa, é bom que se diga, – nasceu na escola e para a escola e evolui assim. Dele, passamos longe.

Assim, crescemos frente à fugacidade da imagem e sob ela fomos educados; frente à rapidez e brevidade de assuntos que deveriam ser mastigados, deglutidos e refletidos fomos arruinados. Foi como se passássemos de moto frente ao Guernica do Picasso e disséssemos que a vimos. Algo muito ilustrativo que descreve o fenômeno de especialistas em tudo que a internet, outra tela perigosa, gerou. O resultado disso? Pontos no IBOPE. Afinal, o que mais poderíamos esperar? O Datena ganha mais quando fala da tragédia ou de uma perseguição policial e os programas sensacionalistas proliferam e trazem para a nossa casa preocupações que não são nossas como a quebra de um caminhão na marginal Pinheiros. Pergunto a você, caro leitor: o que você, de fato, pode dizer que aprendeu com setenta anos de programas de TV? De que forma a Dança dos Famosos do Faustão ou o BBB fez  a sua vida melhorar? Que benefícios a programação do SBT trouxe à população brasileira nos últimos trinta anos. A resposta é nenhum. Nada se salva. E para piorar, nos últimos anos, os canais religiosos nos  apresentam pastores que são verdadeiros ladrões de bens de pessoas bem-intencionadas que acham que vão solucionar seus problemas financeiros  colocando um copo de água sobre a TV e e depositando 50 reais nas já rechonchudas contas da igreja. Essas pobres almas (des)enganadas nunca leram um livro em suas vidas. Reflexo disso é a eleição do Bolsonaro (outro que nunca leu um livro na sua) e que, provavelmente, tem um vocabulário parco e restrito de um adolescente de 14 anos e não sabe nada de assunto nenhum.

O documentarista Michael Moore propõe, em Tiros em Columbine (EUA, 2003) que a epidemia do medo presente em todo o território estadunidense é oriunda de uma relação equivocada com a mídia que faz com que o caucasiano comum consuma e tema (não necessiariamente nessa ordem), movimentando a economia do país. Tirando o termo caucasiano, há alguma diferença do que ocorre no Brasil?

Mas não há nada de bom na TV, poderia alguém perguntar? Claro que sim. A imagem é essencial em nossa formação. Pudemos ver as novelas do Dias Gomes, a chegada do homem à Lua, a seleção brasileira ser penta-campeã mundial, mas, ainda assim, os aspectos nocivos deste modelo televisivo não merecem tantas comemorações. Por isso, na semana em que a TV completa 70 anos de Brasil, deveríamos, junto dela, fazer um “mea culpa” e uma reflexão sobre a necessidade de um Chaves, de um João Cleber, de tantos pastores, de tanta venda de produtos de que não precisamos, de fofocas da Sônia Abrão, de semanas do presidente, de programas de auditório com sertanejos universitários monotemáticos e da ausência de formação e discussões sobre política, sociedade, saúde, educação e cultura que nos levariam a saber que a Terra não é plana e que vacinas são importantes, além de nos preparar para diferenciar notícias verdadeiras de fake news na plataforma seguinte, a internet e de não elegermos um Bolsonaro.

E a minha tristeza é saber que se queríamos fugacidade poderíamos, simplesmente, ler os concretistas Pignatari, irmãos Campos e o Arnaldo Antunes, afinal, imagem não é tudo e respondendo à pergunta de início, posso dizer que na e com a TV, nós, infelizmente, não aprendemos.

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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