
Por Glauco Keller
Imagine a seguinte situação: você é um típico trabalhador brasileiro, é casado e tem dois filhos. Com muito esforço você consegue comprar uma casa pequena e mobiliá-la com alguns simples armários, eletrodomésticos, camas e sofás. Você e sua família se sentem satisfeitos e seguros. Deram um salto financeiro e agora poderão pensar em guardar dinheiro para a educação dos filhos, para uma viagem à praia ou para a troca do carro.
De repente, você descobre que os produtos que você costuma comprar para a manutenção da sua casa agora vem em embalagens maiores que não cabem mais no seu armário. As panelas que agora são vendidas são grandes demais para o pequeno fogão de quatro bocas que você, a muito custo, conseguiu comprar. Você, então, se vê obrigado a comprar outro armário e outro fogão, mas, talvez esses não caibam em sua pequena casa e, consequentemente, você terá de pensar em uma casa maior e se esquecer dos projetos e sonhos.
A situação acima não nos parece crível, certo? Pois bem, troque a palavra casa por celular e você verá que é exatamente isso o que acontece.
Esta semana, me vi obrigado a comprar um celular novo para abrigar os mesmos aplicativos que eu já tinha, pois, um aplicativo de banco não me permite mais usá-lo sem que eu o atualize e aí o problema começa. O aplicativo que tinha peso X, agora tem 2X e eu tenho que me virar e deletar outros aplicativos – que também me são úteis – para baixar a nova versão. Caso contrário, não mais poderei acessar a minha conta pelo celular. Ah! Diriam alguns, mas você pode ir até o banco! Sem contar o tempo dispendido neste processo, pergunto: até quando haverá agências físicas abertas? Os dois bancos dos quais sou correntista fecharam a maioria das agências da cidade e as poucas que restaram estão com os dias contados. Os novos bancos já são totalmente virtuais e esse modelo passa a obrigar que as pessoas tenha um celular, assim como um RG ou CPF para se tornar cidadão.
Outro dia, estive em uma hamburgueria e, como agora é praxe, o cardápio precisava ser acessado através de QR code. O aplicativo não conseguiu lê-lo e, caso minha filha não estivesse à mesa, eu simplesmente não poderia jantar, pois não havia cardápio físico. Não sou avesso às novas tecnologias, pelo contrário, sou um defensor das revoluções sociais, culturais e tecnológicas. Entendo também os aspectos de segurança que envolvem os aplicativos bancários. Meu questionamento, contudo, se dá em duas linhas. A primeira é que a tecnologia que deveria ser inclusiva está excluindo pessoas que não têm acesso a ela, em especial, idosos e os mais pobres.
Além disso, e aí jaz meu segundo ponto, o modelo capitalista é tão capaz de abarcar ferozmente cada possibilidade de centavo adicional que já não mais obriga as pessoas a terem um telefone celular, como um certificado de reservista para prestar concursos públicos ou como um passaporte para sair do país. Agora somos obrigados a trocar de celular com frequência para conseguir usar aquilo que já usávamos antes. Não há escolha, ou nos tornamos ermitões e nos desconectamos da vida social, ou somos compelidos pelo modelo do capital a passar a vida trabalhando para manter tecnologias que agora são obrigatórias para que sejamos incluídos e reconhecidos como cidadãos. Enquanto isso o lixo eletrônico aumenta exponencialmente e a poluição do planeta agiganta-se. Segundo dados da (ANATEL) Agência Nacional de telecomunicações, o país possui hoje 251 milhões de celulares ativos, um número superior ao de habitantes.
A maravilhosa série Black Mirror, criada por Charles Brooker, discute o lado pernicioso da relação homem-tecnologia e traz em cada episódio e no próprio nome, as armadilhas a que somos submetidos a cada dia por um novo “device”. O espelho preto aprisiona a raça humana e destrói o planeta.
E, no meu caso, o curioso é que depois de baixar aplicativos de FGTS, carteira digital, RG digital, recentemente fui fazer uma viagem para o Uruguai e descobri que na alfandega brasileira esses documentos do próprio governo não são aceitos. Há de se levar os documentos físicos impressos. Na entrada no Uruguai, aceitaram. Dá pra entender? E para quem acha que chegamos ao limite, esta semana, após recusar a verba do MEC para compra de material didático, o secretário de Educação do estado, Renato Feder afirmou que as escolas que quiserem poderão imprimi-lo. Como não há computadores, TVs ou datashows na maioria das escolas, é isso o que já está acontecendo. Simplesmente inacreditável Viva o progresso! Viva a exclusão digital!




