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Coluna Alternativa A: Iracema

adoniram barbosa

Adoniram Barbosa é autor de Iracema

Por Glauco Keller

Imagine que você viva no século XIV, seja um camponês e tenha uma companheira com quem teve três filhos. A vida é difícil. A comida rareia e o trabalho é árduo. A pequena cidade onde você mora tem poucos recursos e a peste negra começa a dizimar a população europeia chegando rapidamente ao seu vilarejo. De repente você vê seus amigos, vizinhos e família padecerem pela doença. Embora sobreviva, você perde todos os seus. Como fará, então, para, em meio à tamanhas tristezas manter na memória os rostos, olhares, sulcos na pele, expressões faciais, comportamentos, jeitos e histórias daqueles que você amava?

A resposta é simples, você irá esquecê-los aos poucos. Em alguns anos, não irá mais se lembrar dessas pessoas. Com o tempo a memória passará a lhe enganar e você irá se esquecer daqueles que mais amou.

Parece loucura, mas isso aconteceu com a maior parte das pessoas ao longo da história. Alguns endinheirados, mecenas, reis, rainhas, imperadores até conseguiram eternizar suas imagens – ainda que através dos olhos de artistas – em pinturas ou esculturas, mas a maioria dos homens e mulheres teve de acreditar em suas parcas lembranças para recordar daqueles que tinham perdido.

Em 1956, o cantor e compositor Adoniran Barbosa lançou uma canção que se tornaria um de seus maiores sucessos: Iracema. Nome indígena comum entre a gente brasileira popularizado pelo romance de José de Alencar, a Iracema do Adoniran seria, segundo uma das versões, um amor não correspondido e segundo outra uma mulher vítima de atropelamento cuja notícia foi lida pelo compositor em um jornal. De qualquer forma, a canção retrata a morte da protagonista e o lamento do eu-lírico que não pode mais olhar para sua amada.

Iracema, eu nunca mais eu te vi, diz o primeiro verso da canção.

A Iracema do Adoniran “travessou” contramão a Avenida São João e foi atropelada por um carro a vinte dias do casamento. Desesperado, o poeta brada:

De lembranças guardo somente suas meias
E seus sapatos
Iracema, eu perdi o seu retrato

Ao perder a única fotografia que tinha de Iracema, o eu-lírico sabe que terá de fiar-se completamente em sua memória para se lembrar do rosto da amada. Triste, sabe, também que irá esquecê-la aos poucos.

Ainda que a pintura tenha se popularizado nos últimos cinco séculos e, de certa maneira, em sua versão figurativa, dado lugar a fotografia no final do século XIX, foi apenas no século XXI que a tecnologia permitiu que os seres humanos se transformassem em seres imagéticos a ponto de termos mais fotos tiradas do que palavras escritas ao longo de nossa vida. Os pixels de nossas imagens são pontilhismos que perpetuam os rostos e corpos de todos nós de uma maneira que nem mesmo Seurat um dia imaginou. Entre emojis e figurinhas, hoje a capacidade de armazenamento de nossos celulares aumenta exponencialmente a ponto de sermos capazes de eternizar nossas vozes e trejeitos em vídeos e nossos olhares em milhares de selfies que começo a me perguntar se algum dia as inteligências artificiais criarão eternidades de aromas e texturas de nossos corpos. Afinal, como já escrevi em outra crônica, a seleção natural atuando randomicamente por milhões de anos criou um ser capaz de alterar a própria existência e de perpetuar a sua imagem sem a necessidade de lembranças.

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