Coluna Alternativa A: Música pra ouvir ou pra pensar?

Caetano no Festival da Record em 67/Foto: do site da ALESP

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Em épocas de crise ou de polarização política, sempre que há ideologias opostas e destoantes, como se observa atualmente no Brasil, a arte é chamada a se manifestar.

Se há algo que o governo Bolsonaro não tenta evitar são polêmicas relativas à pauta de costumes. Fugindo de governos anteriores que viram a democracia se consolidar pela vontade da maioria, vemos o governo atual tentar, ainda que sem sucesso muitas das vezes, impor sua vontade à força. Economicamente o governo ainda tem o apoio de grandes setores do empresariado brasileiro e politicamente flerta com o Centrão para não correr riscos de um improvável impeachment. Ideologicamente, contudo, embora tente, o governo não emplaca suas pautas conversadoras.

A militarização do modelo escolar brasileiro, a obrigatoriedade de decorar o hino nacional, o ensino religioso (entenda-se de uma religião), a proibição de discussões sobre drogas, gêneros em ambiente escolar etc. Tudo isso passa por uma mudança que envolve o comportamento das pessoas. É querer impor às pessoas como se vestir, comer ou ouvir música. Os pouco mais de trinta anos de redemocratização do país parecem que foram suficientes para que o brasileiro percebesse que algumas liberdades não são negociáveis. Obviamente que a força de um eventual novo governo militar poderia colocar em risco de morte aqueles que desrespeitassem as supostas normas conservadoras como já aconteceu no golpe de 64, mas, como não parece ser o caso, a gente brasileira ignora alguns discursos de autoritarismo sem a autoridade de razão. Contudo, o discurso conservador insistente incomoda e precisa ser combatido para que não vire rotina. Aí, a arte que, em geral, adormece quando não requisitada, volta à tona.

Talvez a mais popular das seis artes, a música, é sempre chamada em tensões políticas onde a liberdade e a democracia parecem estar em risco. Mas, a música e a arte em geral precisam ser engajadas politicamente? Particularmente, sou fã de letras que reflitam e me contem um pouco do contexto histórico de uma geração ou de uma época. Tendo a me aproximar de música que “tem o que dizer” e que se diferencia de outras, mas isso não me impede de ouvir o Ragatanga.

De qualquer maneira, parece que, em momentos como esse, há duas possibilidades claras para as canções: o entretenimento, caso do novo sertanejo que, frequentemente, é acusado de alienado e monotemático, assim como a Jovem Guarda o foi durante parte do Regime Militar; e a reflexão (que pode ser sobre a política ou não) através de letras que exijam esforço cognitivo e raciocínio maior para que sejam compreendidas.

O que de fato ocorre é que parece que a arte crítica e política desperta em momentos nos quais a sociedade dela precisa. Talvez não haja hoje grandes Rauls, Chicos, Gils, Ritas, Gals, Bethânias, Miltons ou Caetanos tocando nas rádios FM mais populares do país, mas, a juventude já faz tempo demonstra o poder das redes sociais e, nesse espaço, sem precisar buscar muito, começamos a encontrar músicos, compositores e artistas em geral que se posicionam politicamente em sua obra, muitas vezes, correndo riscos profissionais, mas transformando a sua arte de entretenimento em arte política. Obviamente, a alienação intencional de alguns músicos tende a continuar, mas é bom que esses se manifestem, pois, os últimos tempos têm mostrado que a omissão pode ser tão danosa quando a opção errada para a sociedade e para as suas próprias carreiras.

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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