Coluna Alternativa A: Nem pessoa nem coisa

* Por Glauco Keller Villas Boas

A locução nominal “internet das coisas” é bem clara. Os objetos e não simplesmente as pessoas farão conexão com a internet. Utopia de mercado para um país onde nem mesmo as pessoas conseguem se conectar à rede.

Nos últimos três séculos a humanidade mudou suas tecnologias de maneira mais significativa do que tinha mudado nos vinte mil anos anteriores. Tal fato só foi possível por conta da descoberta da possibilidade de controle, armazenamento, condução e uso da energia elétrica. A História da eletricidade e do homem tem seu início no século VI a.C., na Grécia Antiga, quando o filósofo Thales de Mileto, após descobrir uma resina vegetal fóssil petrificada chamada âmbar (elektron em grego), esfregou-a com pele e lã de animais e pôde então observar seu poder de atrair objetos leves como palhas, fragmentos de madeira e penas. Mas, foi só depois dos estudos promovidos pela ciência pós-renascimento que surgiram as possibilidades de geração e de utilização prática da eletricidade.

Com a invenção do motor a vapor vieram as duas grandes Revoluções Industriais. A primeira, no século XVIII possibilitou que a produção de artigos, até então artesanal, pudesse ser ampliada com maquinários. A segunda, no final do século XIX foi além, propiciando avanços no manuseio do aço e de substâncias químicas recém-descobertas, além, é claro, da eletricidade. Já o final do século XX, marcado por duas grandes guerras, infelizmente, demonstrou de maneira clara como os avanços tecnológicos poderiam ser usados para a destruição do próprio ser humano.

A partir dos anos 50, com a Guerra Fria e a consequente competição tecnológica com fins espaciais e, mais uma vez, armamentistas, o desenvolvimento da computação cresceu exponencialmente e a internet começou a caminhar. Tal desenvolvimento, nos EUA, é narrado no cinema na história de três mulheres negras que ajudaram a revolucionar as tecnologias da NASA e a colocar o primeiro estadunidense no espaço, não sem antes, obviamente, lutarem contra misoginia e preconceitos raciais. Estrelas além do tempo*. Imperdível.

Contudo, as consequências comportamentais e culturais que tais revoluções trouxeram à humanidade são temas pouco abordados pelos livros de história. Hábitos de vida no campo foram deixados de lado e até mesmo a cor da pele das pessoas – acostumadas ao sol do trabalho rural – mudou devido às horas sem fim que os menos favorecidos ficavam trancados em fábricas sem ventilação ou luz solar. As cidades cresceram e os governos começaram a perceber que os serviços públicos de educação e saúde competiriam diretamente a eles: surgia o progressismo no começo do século XX nos EUA visando equilibrar o ganho do capital com condições mínimas de vida para o ser humano.

Já no século XXI, a pandemia do COVID-19 exacerbou as diferenças sociais, para alguns já escancaradas, mas para muitos inexistente. A meritocracia – falácia criada por quem não passou por ela – se mostrou, mais uma vez, ineficaz. Com a necessidade do distanciamento social, alunos de escolas públicas, em sua maioria pretos e pobres, ficaram, outra vez, para trás. Tal situação ocorreu não porque eram vagabundos ou desinteressados, mas em decorrência de um contexto no qual 63 superbilionários detém 50% da renda do planeta. Logo, essa diferença não era de surpreender.

Embora os dados oficiais indiquem que em torno de 74% dos brasileiros tenham acesso à internet atualmente, a questão que fica é: qual internet e o que essa internet lhes possibilita?

Essa semana tal assunto foi objeto de discussão do Programa Giro CBN*, apresentado pela Jornalista Marina Lacerda, numa entrevista com o também jornalista e professor Peterson Dias e com o cientista político José Rezende Pereira que foram claros ao destacar que a internet da maioria dos brasileiros ainda é suficiente apenas para uso de redes sociais como o WhatsApp e isso nega a esses informações e conhecimento mais profundos sobre tudo: política, cultura, artes, conceitos acadêmicos e atualidades deixando-os reféns das fake news e, consequentemente, tornando-os vítimas da tecnologia, afinal, as notícias fraudulentas são, estrategicamente, “plantadas” em sua grande maioria em redes sociais.

Assim, a nova dependência de muitos brasileiros dos dispositivos móveis para se informar impacta a qualidade de seus próprios acessos, uma vez que essa modalidade possui franquias com quantidade limitada de dados, o que restringe a quantidade de serviços que podem ser utilizados ao longo do mês, segundo informações do site da Agência Brasileira de Notícias. Resumindo, a informação e o conhecimento, mesmo com um Smartphone em mãos, não chegarão a quem não puder pagar e a suposta democratização trazida pela internet não irá funcionar num país desigual, injusto e preconceituoso onde presidente e vice negam, por exemplo, a existência de racismo na frente de câmeras e microfones. Tal fato explica absurdos como o Brasil ter mais celulares do que pessoas em 2020, mas ser um país que vê sua população não frequentar o dentista e ser destaque no número de analfabetos em pleno novo milênio.

E, se o processo de comunicação e transmissão de conhecimento se dá, a partir de intenções e meios adequados, o modelo do governo brasileiro, inerte e irresponsável foca no hardware, nos dispositivos, sem saber o que fazer e como usar o 5G, esquecendo-se, intencionalmente, da democratização do intangível que é a informação, o conhecimento ou, para os adeptos da linguagem da informática, o software. Resumindo, no Brasil, nem pessoa, nem coisa.

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.
  • Estrelas além do tempo. EUA, 2017. Direção de Theodore Melfi.
  • O Programa Giro CBN vai ao ar todas as tardes em FM 103.9.