Coluna Alternativa A: No início era o verbum

Inezita eternizou o sucesso/Foto: TV Cultura

Por Glauco Keller Villas Boas

Embora a gramática normativa tente, insistentemente, em fazer valer as regras dentro de um processo de comunicação na chamada norma padrão, a transmissão da informação é sempre mais importante do que a forma como ela é feita. Por isso, quando dizemos “é nóis” ou “nóis vai”, embora os equívocos morfológicos e sintáticos sejam evidentes, só o são para a norma padrão, pois todos entendem a mensagem.

Chamada durante muito tempo de norma culta, as regras de funcionamento da gramática normativa indicam a maneira, supostamente, correta de falar e escrever, estabelecendo “normas” para esse ou aquele uso e ao mesmo tempo a descrevendo sob o adjetivo de gramática “descritiva”.

O termo culto(a) vem de cultura e, ao atribuirmos o termo para a gramática “correta”, partimos da premissa de que a cultura é representada pelos hábitos, práticas, costumes e afins produzidos apenas por aqueles que usam as regras corretamente, ou seja, segundo a visão desses mais puristas, pra não dizer, mais conservadores, a Inezita Barroso, ao cantar “..com a marvada pinga é que eu me atrapaio” não estaria produzindo cultura, pois não respeitaria a norma culta da língua.

O fato é que, historicamente, a língua evoluiu da fala para a escrita. Se no início era o “verbum”, esse o era falado, pois a comunicação oral precedeu a comunicação escrita. A escrita, contudo, quando surge, dá ao homem a chance de eternização de sua cultura, pois as histórias orais que morriam com seus contadores, agora podiam ser grafadas através de desenhos e símbolos gráficos.

A forma de falar e de escrever têm sido durante a evolução do pensamento e da cognição humana objetos que caminharam da oralidade para a escrita e é por isso que o dicionário é quem aceita os neologismos, as novas gírias e não o contrário, ou seja, esses surgirem a partir dos dicionários.  Assim, não falamos da maneira como o dicionário e a norma padrão nos mandam, mas esses descrevem o que as pessoas falam.

Vale lembrar, entretanto, que a escrita, ao longo da história, tem ajudado a massificar o conhecimento e a torná-lo mais perene e menos refém do tempo. No século XVI, por exemplo, Martinho Lutero dá início a Reforma Protestante ao publicar suas 95 teses questionando as posturas e práticas da Igreja Romana, mas é quando o próprio Lutero traduz, pela primeira vez na história, a Bíblia (incluem-se aí o Velho e o Novo Testamentos) para o alemão que o conhecimento deixa de ser refém dos padres, bispos e do Papa. Naquele momento, os alemães e, depois, os ingleses, espanhóis, portugueses etc passaram a ler a Bíblia sagrada para os cristãos e interpretá-la a sua maneira, sem a necessidade de acreditar naquilo que os sacerdotes diziam, pois, com o livro santo em Latim, só os falantes da antiga língua dos Romanos – que já não era falada por ninguém – é que podiam ler e selecionar aquilo que deveria ou não deveria ser de conhecimento de todos.

Entretanto, dois fenômenos recentes atraem os olhares de linguistas em todo o mundo. O primeiro faz referência às modificações na língua escrita a partir das redes sociais e da internet. Nesse ambiente, e tão somente lá, escrevemos vc ou pq, mas continuamos a falar /você/ e /por que/. Ou seja, a língua escrita está se modificando sem que o caráter fonético da mesma se modifique; modificam-se os grafemas, mas não os fonemas e, ainda por cima, em apenas um ambiente de comunicação, a internet. Será que, em alguns anos, veremos os dicionários aceitar as formas vc e pq em suas páginas? O tempo dirá.

O segundo fenômeno tem relação com as mudanças de hábitos e costumes que as sociedades ocidentais vêm passando. De uns tempos para cá, observamos que os movimentos que justa e habilmente buscam igualdade de gênero nos âmbitos profissionais, sociais e pessoais voltaram seus olhos para o idioma e perceberam que a língua portuguesa, assim como outras de origem latina são, de maneira geral, machistas em suas construções. Se eu estiver em uma sala de aula falando sobre pronomes para dez mulheres, alguém lá de fora, ao indicar a nossa localização dirá: “Eles estão na sala cinco”, embora eu seja o único homem no local. Outro exemplo desse fato é a figura de Deus ser a de um homem no imaginário das pessoas e sua representação de símbolo gráfico se dar através de um substantivo masculino.

Assim, sem entrar na discussão de gênero (social) ou sexo (biológico), mas focando nos aspectos linguísticos da discussão, é de se observar que surjam dificuldades linguísticas para aqueles que querem estabelecer aspectos mais igualitários de tratamento ao se dirigir a um grupo de homens e mulheres. Pela prática da correção social deve-se dizer: “Bem-vindos e bem-vindas, todos e todas”, mas nesse caso, a fluidez e a naturalidade da comunicação se esvaem, dando lugar a ruídos e artificialidades, porque a língua não tem resposta para a inclusão do gênero neutro no momento, nem para a modificação necessária de pensamento que vivemos. “Bem-vindEs e TodEs” são recursos que alguns usam, mas que, ainda soam mais esquisitos do que usar só o masculino. Curiosamente, na escrita, encontramos no símbolo da arroba, a resposta para o problema: “Bem-vind@s e tod@s” abarcam os anseios de todos e todas. O problema é que a arroba não é um fonema por si só e aí o problema persiste!

De qualquer forma, historicamente, as línguas encontraram maneiras mais ou menos adequadas de representar a comunicação do ser humano na fala e na escrita e, em alguns anos, saberemos os resultados desses dois novos embates em que a comunicação verbal se encontra. O mais importante, contudo, é comunicar e ser compreendido, sem preconceitos ou exclusões; de resto sobra esperar e analisar o que a língua decidiu fazer ou o que as pessoas decidiram fazer dela.

 

  • Moda da Pinga (Marvada Pinga) – Compositores: Cristiano Lemos Machado / Luiz Mario De Abreu E Freitas / Marco Aurelio De Abreu E Freitas.

 

 

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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