Coluna Alternativa A: O BBB da discórdia

●        Por Glauco Keller Villas Boas

O termo Big Brother apareceu pela primeira vez na literatura na obra 1984, de George Orwell. Na obra, escrita em 1948, o escritor vislumbra uma sociedade distópica e futurista na qual um único partido detém as liberdades individuais, comportamentais e emocionais das pessoas. Sob uma vigília constante, a sociedade se vê diante de um governo autocrata, agressivo e opressor que elimina desejos e paixões em prol de um suposto bem comum. O virtual mandatário do partido é o Big Brother que, através de olhos e ouvidos onipresentes e onipotentes vê, ouve e controla cada passo que o cidadão dá.

Com modelo importado da Holanda, o Reality Show Big Brother chegou ao Brasil em 2002 e, rapidamente, caiu no gosto do brasileiro. O voyeurismo nacional não resiste às olhadelas através da fechadura da porta e transforma a vida de pessoas comuns, trancadas por três meses em uma casa, em uma grande novela.

Já quando chegou ao Brasil, a TV mostrou seu formato comercial mais agressivo. Só ficaria no ar aquilo que vendesse e desse dinheiro, não importava a qualidade. Desta forma, o entretenimento que nos foi apresentado a partir de então não tomou conhecimento de que havia uma proposta diferente de fazer TV, com enfoque educativo também, muito comum em algumas TVs estatais europeias. O entretenimento pelo capital nos levou quase ao fundo do poço com programas vespertinos que mostravam brigas por sabonetes dentro de banheiras e que há mais de trinta anos mostram as “jokes and gags” das mesmas video-cassetadas nas tardes de domingo. Não há saída para o cidadão comum que não tem acesso a bibliotecas, livrarias, TV paga ou qualquer outro tipo de entretenimento artístico.

Nesse sentido, deixamos de usar nosso maior veículo de comunicação em massa para educar as pessoas e isso é projeto. Repito. Projeto. Panis et circenses (mais circo, na verdade) na cara dura. São programas que apelam para a emoção do espectador como afirma o roteirista Mauricio Stycer: “Não aguento mais ligar a TV no domingo à tarde e ver alguém tentando me fazer chorar”. Ou rir, concluo. O projeto é tão agressivo que sua comercialidade, também, tem abusado do velho modelo medo-compra, tão bem destacado pelo documentarista Michael Moore, em seu filme, Tiros em Columbine (EUA, 2001) e que, no Brasil, culminou na perda de empatia que hoje nossa população tem pelo seu semelhante e na consequente eleição de um limítrofe para o maior cargo eletivo do país. O que são 250 mil mortes, afinal? Vamos abrir tudo. Quem tiver que morrer que morra. Nos acostumamos à banalização da vida e da morte no Programa do Datena que já não se contenta mais em fazer a cobertura do alagamento da favela, espera e torce pela chuva para poder ter mais pontos no Ibope.

Esse modelo de entretenimento é tão bem elaborado que faz, até mesmo, aqueles que, supostamente, possuem uma leitura mais reflexiva e crítica da sociedade, entendendo suas mazelas e desigualdades, caírem na armadilha da discussão artificial e irrelevante. Nada tenho contra as polêmicas discussões do BBB sobre o politicamente correto, as lacrações, ativismos e militâncias, apenas me entristeço ao ver que assuntos que merecem sair da superfície sejam objeto de roteiros e edições de um programa de entretenimento.

Vi, essa semana, uma postagem de uma página intitulada Transgressão Literária. Nela, Will, no twitter, afirma: “Gente, ninguém é obrigado a ter uma vida monocromática, não. Garanto que é tranquilamente possível assistir o #BBB e continuar lendo o seu Dostoievski”. É óbvio que, a postagem acerta ao seguir o pensamento, Rodriguiano de que “toda unanimidade é burra”. Meu questionamento, porém, se dá em três pontos.

Primeiramente, não há Dostoievski à disposição. Não há livrarias, não há bibliotecas. Os livros são caros e quem vê BBB não lê e não tem condições de ler Dostoievski. Além disso, lamento dizer que o capital abarcou discussões tão relevantes e as transformou em entretenimento a partir de uma suposta “esquerda intelectualóide” que se torna refém de modismos e cabelos coloridos. É muita estética e pouco conteúdo e “muita estrela pra pouca constelação”, como diriam Raul Seixas e Marcelo Nova. Por fim, o objeto final do programa é lucrar e não educar e politizar. São os cifrões que importam e, para isso, tudo é possível.

Em uma produção televisiva, normalmente o processo vai da escrita para a gravação (falas). Um livro que será adaptado para o cinema ou TV, por exemplo, é roteirizado com indicações de fotografia, textos e falas, cenários e figurinos. Nesta ordem. No BBB, o processo é inverso. Há, obviamente, indicações e orientações de atividades para que as “personagens” entrem em atrito e, consequentemente, isso gere polêmicas e pontos no Ibope, mas, de maneira geral, as falas são todas originais e aí vem o pulo do gato. O roteiro é montado depois das falas, subvertendo o processo de criação de um filme, novela ou peça de teatro. Nesse modelo cruel, a narrativa é construída com o intuito de descontextualizar as falas e produzir uma história que seja “vendável”, ainda que sua temática seja, supostamente, de relevância social. Aí, assim, como Orwell previu em sua obra, a Polícia do Pensamento surge ofensiva e opressora nas redes sociais, repercutindo tudo aquilo o que os criadores do programa querem, pois os contratos com os anunciantes são elaborados com cláusulas que sugerem valores proporcionalmente ligados aos pontos no Ibope e aí a pseudointelectualidade brasileira morde o queijo da ratoeira do BBB, enquanto o STF é ameaçado, a Amazônia está caindo e o decreto de armas vai passando junto da boiada. E o mais surpreendente é que para quem achava que o objeto maior do capitalismo seria a venda do próprio corpo humano, com a clonagem de órgãos, por exemplo, Orwell mostra, mais uma vez, que estava certo, pois o Grande irmão está vendendo o pensamento do brasileiro.

  • O autor é professor e jornalista e apresenta o Prgrama Altetnativa A todos os sábados em 102.1 FM.

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