Coluna Alternativa A: O João Gilberto e os meus alunos

João Gilberto, o pai da Bossa Nova

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Uma das coisas que mais me faz gostar da profissão de professor é a sensação de que o tempo não passa. Viajo nele ficando sempre no presente. Os meus alunos me rejuvenescem a cada aula, afinal faz mais de vinte anos que eles têm a mesma idade. Aí eu acabo ficando na casa dos vinte, também.

A outra é a chance de aprender coisas novas. Se há algo que me encanta é a descoberta. Conhecer uma banda nova, descobrir um novo filme, uma nova história, ainda que elas sejam novas só para mim, afinal, ao apresentar os Beatles para o meu filho de dois anos, em 2007, os garotos de Liverpool, pelo menos para ele, eram a maior novidade. O Murilo adorava “Love me do”.

Se a língua é código de comunicação, deve ser utilizada, mesmo quando a estudamos, para comunicar algo e, assim, aprender sobre alguma coisa enquanto se estuda outra torna a aula mais atrativa para o professor e para o aluno. Em uma aula de língua inglesa de um terceiro ano de Ensino Médio, nessa semana, estávamos estudando os discursos direto e indireto e, para tal, mergulhamos na Bossa Nova. Ouvimos João Gilberto, Sérgio Mendes com Black Eyed Peas e Vinícius. Aí, mergulhamos num texto* sobre as origens da Bossa em meados dos anos 50, no Rio de Janeiro.

Ivo, um aluno querido de uma das salas, após discussões sobre os aspectos musicais e temáticos da Bossa me perguntou: “A Bossa Nova pode ser considerada o Romantismo da música brasileira?” Não há para um professor, momento mais sublime do que quando a pergunta sobrepõe-se à aula. A reflexão do Ivo mostrava que ele (e por conhecer as turmas agora unidas pelas aulas remotas, de todos os alunos) tinha usado o tema para dialogar interdisciplinarmente com grande aprofundamento crítico sobre a temática e isso me fazia, também, aprender.

A Bossa nasce da junção de Samba e Jazz. Acústico, o ritmo rapidamente encanta o mundo e Chega de Saudade e Garota de Ipanema levam o novo gênero musical às paradas de música em todo o planeta.

Contudo, a aura que a envolvia e era necessária para os aspectos estilísticos e musicais da Bossa Nova era a de praia, sensualidade, leveza, alegria, boemia e despreocupação. A temática lírico-amorosa nasceu com a Bossa e, como numa simbiose entre letra e música, não podia mais ser dela apartada. Os textos verbais e sonoros juntos formavam a Bossa Nova. Contudo, os anos 60 chegaram e com eles, o recrudescimento de uma ditadura violenta e hostil e a arte, como é de se esperar, precisava ter algo mais a dizer, mas a Bossa não conseguia, afinal, seu ritmo só existia junto de sua temática romântica e universal. Era naturalmente lírica e falava de amor e de saudade. Vieram as críticas. A primeira, creio, legítima. Oriunda de gêneros musicais tipicamente negros e periféricos, a Bossa era branca e de classe média. João Gilberto, Vinícius, Roberto Menescal, Sérgio Mendes e a musa Nara Leão formava a família musical da Bossa Nova. A segunda versava sobre a alienação da música em tempos de cólera e embate político. Raul Seixas chegou a dizer que enquanto os bossanovistas estavam cantando com um banquinho e um violão, ele estava tomando borrachada da polícia. A melhor defesa que a Bossa pode ter se dá na aceitação de que a “nova onda” podia ser alienada, mas seus compositores e músicos não. Vinicius era um incômodo para o governo militar e saiu do país por isso. Menescal produziria artistas extremamente políticos e rebeldes como o próprio Raul e Nara incomodava pela sexualidade e juventude.

Mas, como na linha evolutiva das artes, o equilíbrio se dá após a ruptura e o contraponto, os amores românticos, ingênuos e platônicos foram substituídos por um Realismo mais ativo e consciente das mazelas do país. A Literatura nos deu um Machado! Da mesma forma, a Bossa vê, o nascimento do Rock rebelde do Raul e a antropofagia musical e contestadora da Tropicália, dos Mutantes e dos Secos e Molhados que chegaram para ganhar as paradas.

A aula passou rapidamente e o Ivo acabou ficando sem uma resposta adequada. Ironicamente, essa acabou vindo em forma de crônica, mas com a consciência de que o que de fato a pergunta mostrou foi que ele e a classe tinham entendido tudo o que eu havia dito. Desliguei o computador e saí rindo sozinho com a aula que eu tinha acabado de assistir, afinal, como disse o Guimarães Rosa, “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente, aprende!”

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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