Coluna Alternativa A: O Kit-COVID e as novas tecnologias

Medicamento segue no centro da polêmica
  • Por Glauco Keller Villas Boas

As tecnologias sempre evoluem mais rapidamente do que a capacidade do ser humano se adaptar a elas. Foi assim com o primeiro machado que, certamente, deve ter decepado pernas e braços de muitos, ainda que involuntariamente; com as máquinas da primeira e da segunda Revoluções Industriais e, é evidente, com os celulares e as redes sociais.

Já falei aqui sobre o fato de vivermos em uma era da burrice. Todo o conhecimento e cultura que o ser humano tem acumulado em milhares de anos de existência estão sendo jogados fora por uma parcela significativa das sociedades que têm como microfone potencializador de suas ideias esdrúxulas a internet.

O sintagma “Mas é minha opinião” parece que virou defesa para que se diga que a Terra é plana, que vacina não funciona e que Deus vai te punir se você não doar seu suado dinheiro à igreja. Liderados por um presidente que nunca leu um livro na vida e que tem uma visão rasteira e limítrofe de arte e de ciência (quer taxar livros, mas cortar impostos de armas!), essa horda de leitores de WhatsApp acredita em qualquer teoria da conspiração. Desde que o homem não pisou na Lua, até que há um movimento comunista mundial – pasmem, liderado pelo Joe Biden – para derrubar Jair Bolsonaro do poder. E está cheio de vereador e ex-vereador aqui na cidade que não estuda, não ouve, não gosta de aprender e nunca leu nada, além de links de fake news no grupo da família, mas que quer prescrever medicamento.

Entretanto, a grande questão não é apenas que essa potência das redes sociais e da comunicação à distância tenha dado voz a essas pessoas. Estamos diante de gente que não tem a menor noção de percepção não só do que falar, mas do momento e da forma que deve falar.

Em um colégio da região, um amigo professor estava dando aulas via uma plataforma digital e discorria sobre a vacinação no estado de São Paulo quando uma mãe abriu o microfone da filha para deixar claro que “nem a filha, nem ninguém da família iria se vacinar contra a COVID, pois era melhor pegar o vírus a tomar a vacina”. Há de se concordar que tomar ou não a vacina é um problema pessoal dela e da família, afinal, não há obrigatoriedade para tal, mas, invadir a aula do professor virtualmente é o mesmo que entrar na escola, passar pela secretaria, abrir a porta da sala de aula e começar a gritar.

No grupo do bairro em que moro um senhor insistia em enviar receitas milagrosas com cloroquina, hidroxicloroquina e tratamentos precoces para curar a COVID. Perguntei-lhe se, ao menos, era médico e logo descobri que não. Embora o ato em si seja muito danoso, pois ele pode ter induzido alguém a tomar medicação inadequada e sem comprovação científica para combater a COVID-19, certamente ele não faria cartazes e ficaria na entrada do residencial presencialmente parando os carros para sugerir o uso do malfadado medicamento. Ou seja, ele não está, como a mãe do aluno do meu colega, adaptado ao uso da tecnologia. A tecnologia é mais rápida do que os dois. Eles não foram capazes de notar a falta de razoabilidade de seus atos.

E se no início era o verbum, o diálogo, agora estamos vivendo o processo do grito, da linguagem não-verbal ríspida e da violência dentro e fora das redes sociais em que o que se fala não parece ter a mesma importância do que como se fala e a automedicação é só um dos malefícios criados por fanáticos medievalescos que enxergam um passado nostálgico que nunca existiu.

Ah! E quanto aos medicamentos do Kit-COVID e das cloroquinas, estou esperando sentado por um pesquisador ou laboratório pedir registro na ANVISA (que está sob o comando do governo Bolsonaro) para tratamento do Corona Vírus. Indicar sem responsabilidade é uma coisa, estudar pra colocar na bula é outra, né!

E do jeito que indústria farmacêutica aprecia os lucros, se esses medicamentos funcionassem, às portas da ANVISA estariam repletas de filas de empresas lutando para registrar os vermífogos todos. Até agora, contudo, não vi nenhuma. Só, como de costume, gritos via redes sociais, seja na sala de aula, seja no WhatsApp!

  • O autor é professor e jornalista.

As opiniões do São Carlos em Rede são manifestadas em editoriais, essa coluna reflete a opinião do autor.