Coluna Alternativa A: O Porto e o Valcinei

A beleza de Porto de Galinhas
  • Por Glauco Keller Villas Boas

Uma das coisas que sempre gostei de fazer é viajar. Já viajei muito, conheci algumas cidades, estados e países e, como todo estrangeiro, passei agruras e muitos perrengues dos quais me orgulho. Já me perdi em Londres bancando o guia para um grupo de mexicanos, fui atacado por uma senhora no mercado municipal de Santiago, tomei café com pimenta do reino em Los Angeles, exausto, sentei-me em uma cadeira num museu em Montevidéu sendo, delicadamente, informado pelo segurança que descansava sobre uma obra e até fui testemunha ocular de um pequeno acidente em uma montanha russa em Stuttgard, mas ainda não conhecia o Nordeste brasileiro.

No feriado prolongado, que une os dias 2 a 4 de Novembro para os são-carlenses, fui para Porto de Galinhas, em Pernambuco. Porto de Galinhas fica a aproximadamente 100 km ao sul do Recife e é distrito de uma cidade chamada Ipojuca. Com pouco mais de 10 mil habitantes, é um lugar encantador, seguro e acolhedor. Praias paradisíacas, feira hippie e boa música na beira da praia. Lá, ouvir e reverenciar o grande Alceu Valença é quase uma obrigação.

Nas lojas locais abundam galinhas de todos os tipos, modelos, cores e tamanhos. As D’angola são as mais procuradas. Segundo os moradores, a região tem esse nome, pois, por ocasião da abolição da escravatura, no final do século XIX, navios negreiros clandestinos fugiam da fiscalização do Recife e aportavam às escondidas carregando galinhas em seus decks superiores e pessoas para serem escravizadas em seus porões. Quando “chegava galinha no porto, todos sabiam do que se tratava”.

No nordeste, senti que ainda sou capaz de alcançar o tempo, que há muito corre mais rápido do que eu. De todas as belezas locais, me encantou mais a gentileza das pessoas. Por ser jornalista e professor da área de linguagens, nada me atrai mais do que histórias e sons. A musicalidade do sotaque nordestino me deixa mais leve e faz meu coração bater mais forte. Lá ouvi o William, artista de rua que, com sua voz melodiosa e grave, brindava a todos com Zé Ramalho, Alceu, Moraes, Caetano e tantas outras nordestinices maravilhosas. Conversei com a Lili, uma moça sem estudos que ganha três reais por cada família que consegue levar para jantar num restaurante no centro da cidade. Me chamando de professor e demonstrando um reverência da qual eu não me senti merecedor, Lili me contou que tenta aprender uma palavra nova por dia e me pediu que eu lhe ensinasse uma que ela não soubesse. Em Porto, comprei um azulejo pintado na hora por um jovem de pouco mais de vinte anos chamado Alex, que aborda gentilmente as pessoas e desenha à tinta as praias locais, eternizando a viagem para os turistas. Descobri, também, que os passeios mais atrativos para os turistas são para as praias de Carneiro/PE e Maragogi/AL, além das voltas de buggies. Não fiz nenhum, pois já havia encontrado o que me interessava: paz, boas histórias e muito vento. Voltei mais lento e mais sabedor de que o Nordeste não é o que é à toa. Faz por merecer todo o encantamento que tem.

Mas, se você chegou até aqui, merece conhecer uma das gafes desta viagem. Tenho por hábito, perguntar o nome dos garçons em qualquer bar ou restaurante em que esteja. Me incomoda o “chefia”, “amigão” que o Skank cantou. Depois de conhecer o Valdézio e o Gleidson, após um drink ou outro, na beira da praia, não precisei perguntar pelo nome do atencioso rapaz que me trazia as porções e os chopps. Com um bottom com nome visível na camisa, Valcinei foi sempre muito gentil e sorridente. Somente no final da tarde, quando o sol baixou e eu retirei meus óculos escuros é que percebi que todos os garçons do bar tinham o mesmo nome. Sob estranhamento e querendo sentir vergonha alheia e não de mim mesmo, descobri, depois de tê-lo chamado ao longo de toda a tarde pelo nome de Valcinei, que o jovem carregava no peito um broche com os dizeres “já Vacinei”.

  • O autor é professor e jornalista.