Coluna Alternativa A: O Rock morreu?

  • Por Glauco Keller Villas Boas

O Dia 13 de julho é o dia Mundial do Rock devido à edição especialíssima do festival Live Aid de 1985 realizado simultaneamente na Inglaterra e Estados Unidos, respectivamente potencializadores e criadores do Rock. Naturalmente, o mês de julho passou a ser considerado o mês do Rock’n’roll.

O ritmo que mexeu com as bases do conservadorismo político e social de várias décadas nasceu no início do século XX. Teve suas bases no Rhythm and Blues (ou R&B) que mesclava blues, gospel e American Country Music, a música sertaneja dos ianques.

Com cara, voz e gingado de negro, o ritmo rapidamente atraiu a juventude americana nos anos 1940. Era preto, pobre, molambento e sexualizado demais para agradar a uma conservadora classe média branca, composta por alguns indivíduos que ainda lutavam para manter o apartheid social legalizado e que só viria às ruínas após os movimentos civis da década de 1960. Os jovens amavam o Rock, seus pais o odiavam.

Rapidamente, a indústria fonográfica percebeu o imenso produto que tinha em mãos e “embranqueceu” o Rock’n’Roll para torná-lo mais palatável e rentável. Surgiam Bill Haley, Elvis Presley e outros ídolos brancos e a rebeldia começou a virar produto com a jaqueta de couro do Marlon Brando em 1953 no lançamento de “The Wild One”.

Ainda assim, o ritmo não era só mais um gênero musical. O Rock’n’roll seguiria vivo por mais algumas décadas com jeitão de adolescente rebelde, transgressor e se reinventaria em subgêneros que foram da psicodelia ao ‘do it yourself’ dos Punks.

Mas em pleno século XXI, será que é possível dizer que este octagenário continua vivo?

Sim e não.

O jornalista André Forastieri com quem, junto do professor Alex Turci, tive o prazer de receber no Programa Alternativa A, em seu livro de crônicas artístico-musicais “O dia em que o Rock Morreu” destaca que o Rock feneceu como fenômeno juvenil e estilo de vida. Hoje, embora ainda que surjam novas bandas e belas composições feitas por adolescentes de quinze ou dezesseis anos, esses não chocam mais ninguém ou não trazem consigo a atitude rebelde e transgressora de outras gerações. Segundo André, uma guitarra na mão e uma camisa preta hoje em dia não são as maneiras com as quais o jovem mira o futuro e tenta moldá-lo ou alterá-lo. O Rock é passado. Ponto.

Como gênero ou ritmo musical, contudo, o Rock continua vivo, mas novas produções, ainda que brilhantes ou inovadoras, serão sempre vistas como novas composições de música clássica ou de jazz, ou seja, miram o passado e não o futuro.

Forastieri, único jornalista brasileiro a entrevistar Kurt Cobain em sua vinda ao Brasil com o Nirvana em 1993, destila deliciosa acidez no livro que perpassa por vinte e cinco anos de crítica musical e reafirma que quando todos achavam que o Nirvana estava inaugurando uma nova era para o Rock, com o novo Punk-Grunge, estava, de fato, selando o caixão do, então cinquentão, Roquenrou. A partir dali, só mais do mesmo.

                        De qualquer maneira, novidade é tudo aquilo que você não conhece e, talvez, o mês de julho possa lhe servir para conhecer o passado, revisitar a história musical do século XX e descobrir que a expressão Rock’n’Roll fazia alusão à curtição e ao ato sexual ou que uma mulher foi a primeira pessoa a gravar o clássico Hound Dog. E sobre o livro do André, mais um spoiler, ele vai arrebentar com os seus ídolos, mas, generosamente, poupou o meu. A crônica sobre Raul escancara a visão lúcida e sem corporativismos que Forastieri tem a respeito do Rock como estilo de vida e não simplesmente como gênero musical.

  • O autor é jornalista e professor.