Coluna Alternativa A: Para que serve a Literatura?

Por Glauco Keller

O que difere o ser humano da maioria dos animais, além da capacidade inata de sorrir? Se você respondeu a produção de fala articulada, começou bem. Vou mais além, a fala articulada possibilitou ao homem a produção de cultura e nos diferenciou do restante do reino animal.

Cultura é tudo aquilo que não é hereditário ou biológico. São as crenças que temos, o time de futebol para o qual torcemos, a culinária de nosso estado, as vestimentas que usamos e a arte que produzimos. Contudo, quando falamos em arte, é preciso destacar que, paradoxalmente, sua maior utilidade é não precisar ter utilidade, ou seja, não ter a necessidade de servir para nada. Afinal, para que escutamos uma música? Qual a razão de assistirmos a uma peça de teatro ou de lermos um livro?

Expressões puras da emoção humana, conduzidas ao longo dos tempos pela cultura, as artes viram sua importância e conceito variarem ao longo dos tempos. A pintura, por exemplo, ganhou, de fato, status de arte pictórica no século XV com os Renascentistas. Até então, o ato de pintar, embora fosse reconhecido e praticado pelas sociedades ocidentais, não era visto por elas como uma arte por si só. Os famosos afrescos italianos, por exemplo, eram modalidades de pintura em parede que adornavam os prédios, embelezando as esculturas e as arquiteturas.

Fato bastante distinto aconteceu com a literatura, a arte da palavra. Desde que o homem passou a produzir fala e, posteriormente, escrita, a literatura conceituou-se como a principal veia artística na difusão de conhecimento, fosse ele cultural ou científico. Popularizando-se no Ocidente a partir de Homero (928 a.C – 898 a.C), o ato de produzir histórias ficcionais moldou padrões e conceituou práticas e comportamentos ao longo de quase 3.000 anos, dividindo-se em gêneros que se definem a partir da intenção do autor quando produz o seu texto.

Entretanto, será que é possível afirmar que a literatura é a mais importante das artes? Pessoalmente, creio que sim, mas não arriscaria responder afirmativamente na frente de Picasso, Rodin ou Almodóvar. É possível, no entanto, afirmar que o texto está presente, ainda que imageticamente, em todas as outras formas de arte: na letra ou na cifra da música, no roteiro de cinema ou na descrição de um movimento fluido do tango ou da valsa e, desta forma, mais do que todos os outros cinco gêneros artísticos juntos, ajudou a moldar as sociedades até o modelo que conhecemos hoje. Por vezes, com a vantagem de fazer isso discretamente sem se fazer perceber enquanto arte.

Porém, se a pintura se viu desafiada pela fotografia e sobreviveu através dos impressionistas e expressionistas que individualizaram a mesma imagem e o teatro viu-se ameaçado pelo cinema e, – para muitos, só sobreviveu, por dar ao espectador a liberdade de escolher para onde olhar-, será que a literatura irá sobreviver à sociedade imagética dos memes, Instagram e emojis?

Ousaria dizer que o ato de escrever, produzir histórias e contá-las oralmente ou através do texto escrito irá continuar a grafar o nosso futuro. Provavelmente, apenas através do texto virtual, digitado no teclado ou na tela de um celular e não mais impresso ou manuscrito no papel, mas vivo como sempre esteve desde os primeiros desenhos nas paredes das cavernas.

Talvez, sem que percebamos estejamos vivenciando um novo período literário sincrético entre imagem e verbo que, sem alardes, dá mais vida à literatura. E essa só para se provar artística continua sem utilidade compulsória, mesmo sendo útil quando assim o quer – e por isso sempre será o maior fator de identificação do ser humano na perpetuação de sua espécie. No fim, descobrimos que a Literatura não serve para nada e por isso tanto nos humaniza.

  • O autor é professor e jornalista.