Coluna Alternativa A: Parabéns, Professor Paulo Freire

Paulo Freire é patrono da educação brasileira

Por Glauco Keller Villas Boas

Paulo Freire é um dos maiores educadores do mundo. É estudado em Harvard, Yale, Columbia entre tantas outras universidades renomadas no mundo. Mas, no Brasil, devido ao reacionarismo e a ignorância política dos tempos atuais, é considerado esquerdista.

Patrono da pedagogia e da educação brasileiras, Paulo foi responsável pela criação de um método que partia da premissa de que o entorno do aprendizando, seu ambiente, sua história e sua cultura deveriam ser levados em consideração na hora do estudo. Usar uma luva de lã como exemplo para ensinar a letra L para uma criança acreana não tem sentido e parece óbvio, mas, infelizmente, a escola brasileira, por questões histórico-políticas opta por verter sobre as cabeças de nossas crianças verborragias desnecessárias sobre a história dos imperadores da Roma Antiga e não se preocupa em ensinar aos seus alunos a história de seu bairro ou de sua vizinhança. Poucos são aqueles que sabem quem foram as pessoas que dão nomes às ruas onde moram.

Se vivo, o autor de Pedagogia do Oprimido e do milagre de Angicos em que alfabetizou mais de 300 pessoas em pouco mais de um mês, faria 100 anos no dia 19 de setembro de 2021. O MEC, porém, decidiu não homenageá-lo, deixando para o resto do mundo fazê-lo.

Aqui em São Carlos, há algumas semanas, o professor e vereador Azuaite Martins de França (Cidadania) tentou criar um prêmio de nome Paulo Freire para homenagear projetos de destaque nas escolas municipais da cidade. O projeto que instituiria o “Prêmio Paulo Freire de Educação e Inovação” foi rejeitado pela maioria dos vereadores num grande exemplo de ignorância histórica e política da Câmara Municipal da cidade.

Meu pasmo foi grande ao ver que dos votos contrários constavam alguns de professores que, versando ignorância deliberada, agiram como capitães do mato e provaram à sociedade duas coisas: nunca leram Paulo Freira, mas repetem crenças risíveis sobre ele como papagaios irracionais; optaram por ficar do lado errado da história ao apoiarem as narrativas de um governo federal que se dissolve diariamente e é liderado por um presidente que exala mau-caratismo e ignorância, além de apregoar violência, agressividade e desprezo pela democracia.

Entristecido, mas não mais surpreso, resta a mim como educador lamentar que parte dos vereadores da cidade não tenha o hábito de ler Paulo Freire ou qualquer outro livro. Fincaram os pés nas medievalidades históricas, são talibãs travestidos de democratas que causarão vergonha aos seus filhos e netos num futuro não muito distante. Ou talvez, no centenário de Paulo Freire, a homenagem não deva ser mesmo feita para ele, pois, invertendo-se os papéis, Paulo Freire tem nos homenageado a todos com sabedoria e conhecimento que faltam, evidentemente, a alguns homens do legislativo da cidade que, outrora, foi chamada de Atenas Paulista.

E para você tirar as suas próprias conclusões, caro leitor, finalizo com alguns pensamentos de Paulo Freire, com os quais alguns vereadores da Câmara Municipal de São Carlos não concordam:

“Não há vida sem correção, sem retificação.”

“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

“Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.”

“Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes.”

“Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade.”

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

“Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica.”

“Ai daqueles que pararem com sua capacidade de sonhar, de invejar sua coragem de anunciar e denunciar. Ai daqueles que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e o agora, se atrelarem a um passado de exploração e de rotina.”

“(…) Todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje (…). Temos de saber o que fomos, para saber o que seremos.”

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.”