Coluna Alternativa A: Pare o mundo que eu quero descer

  • Por Glauco Keller Villas Boas

A jornalista Marina Lacerda me ligou em agosto de 2020 e me convidou para ler um livro por semana e para falar sobre ele na CBN. Sempre li bastante e me dispus a ler e a reler alguma obra e a resenhar sobre ela, indicando-a, no Programa Giro CBN.

Neste período, muita gente me procurou e comentou que havia lido o livro indicado na semana. Outras me disseram que ficaram empolgadas com as dicas, mas que não tinham o hábito de ler. Outras ainda mais generosas juraram que baixaram o Spotify só para ouvir os podcasts. De todas essas, uma me era muito especial, meu primo Olavo.

Foi em sua companhia que passei a maior parte da infância e da adolescência em uma casa adorável, onde hoje é o Café Sete, no final da Rua Sete de Setembro. Ali, aprendi sobre livros, filmes e músicas. No velho três em um Gradiente, conheci Simon & Garfunkel, Creedence, Dire Straits, Chico Buarque e Caetano Veloso. De todos os músicos e bandas que ali me tocaram, literal e figurativamente, foi o Raul Seixas, apresentado pelo “Olavinho”, num álbum de meados da década de oitenta, que mais seguiu comigo, tornando-se meu psicólogo.

Ali naquela casa, em meio à abertura política e as cores da democracia iminente, gravávamos fitas cassete e passávamos horas falando de cinema e de arte. Ainda sou capaz de sentir os cheiros da cozinha ou de ouvir a serra do Seo Pedro, marceneiro vizinho.

Minha entrada ao vivo para a dica de livro ocorre por volta das quinze horas e, dez minutos depois, costumo receber mensagens relativas à minha fala. Durante cinquenta e uma semanas, a primeira mensagem que recebi sempre foi do Olavo. Um comentário elogioso, uma sugestão ou um apontamento chegava logo às quinze e onze.

Na última terça, o Clube do Livro completou um ano de vida e a obra que li na semana foi “O olho mais azul”, da escritora Toni Morrison, a primeira mulher negra a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, e esta foi a única vez no ano em que não recebi a mensagem de meu querido primo. Na véspera, seu coração não aguentou os anos e os estresses da vida de bancário, as frustrações com as injustiças sociais e o medo do golpe e resolveu parar de bater.

A coluna Clube do Livro, em seu aniversário, não aconteceu, porque naquele exato momento eu estava fazendo companhia ao meu parceiro que ia embora deste mundo.

No peito, bem sobre o coração, ele levou consigo uma fita cassete com canções do Raul que eu havia gravado lá na casa da Rua Sete de Setembro. A fita estava esquecida num quartinho na casa de minha mãe e se foi com ele, escondida no paletó azul debaixo de um ramalhete de margaridas brancas.

Espero, de verdade, que um dia eu possa reencontrá-lo só para lhe dizer que morrer foi uma grande canalhice que ele nos fez. Olavinho pulou do carro em movimento e nos deixou aqui sem saber o que fazer e sem saber o que falar. Deve ter ido  embora ouvindo “Eu também vou reclamar” do Raul. Só de sacanagem, deve ter se despedido deste mundo cantarolando o verso que diz “…pare o mundo que eu quero descer”.

  • O autor é jornalista e professor.

Foto: Enjoei