Coluna Alternativa A: Quando eu morri sem saber

Por Glauco Keller Villas Boas

Essa semana aconteceu de novo, me perguntaram por que eu assino Glauco Keller. Meu nome é Glauco Keller Villas Boas. O austríaco, Keller, veio da mãe e o português, Villas Boas, veio do pai.

Desde que cheguei à adolescência, passei a assinar Glauco Villas Boas e assim foi durante meu período de estudos na E.E.S.G. “Dr. Álvaro Guião” e durante meus anos universitários. Quando saí da Unesp, comecei também a mesclar as aulas que ministrava em escolas de inglês da cidade às aulas em escolas de ensino médio e cursos pré-vestibular. O ano era 1998. Fui lecionar em Pirassununga, no extinto Colégio Atena; entrei no Interativo São Carlos, onde estou até hoje; cai na estrada, como vários colegas, e fui trabalhar em um colégio em Piracicaba, cidade devidamente conhecida pela pamonha, pelo sotaque carregado do R retroflexo e pelo famoso Salão do humor de Piracicaba. Nele, cartunistas de todo o Brasil exibem anualmente seus melhores trabalhos, satirizando políticos, comportamentos e práticas da sociedade em aulas magnas de textos sincréticos ou, às vezes, simplesmente, imagéticos. Pois bem, uma das figurinhas fáceis da Exposição sempre foi o meu homônimo, Glauco, que, logo cedo vim a descobrir que era também Villas Boas.

Curiosamente, minha assinatura sempre foi muito parecida com a dele, mas esta é outra história. As confusões começaram quando, já na primeira semana do colégio, recebi congratulações de várias pessoas por meu trabalho no Salão do Humor daquele ano, começo do século e do milênio. A secretária da escola foi a primeira: “Glauco, não sabia que você também era professor”. Depois, vieram alunos e até pais de alunos: “Professor, me dá um autógrafo?” – na época as selfies ainda não eram moda. Percebi que as pessoas conheciam a obra do Glauco, criador do Geraldão e do Geraldinho, mas não a pessoa física. Para evitar maiores confusões e explicações desnecessárias e enfadonhas, “Ah! Que pena, não sou eu, mas sou um grande admirador do Glauco”, passei a assinar Glauco Keller e a deixar, aos poucos, o Villas Boas de lado. Inicialmente só nas escolas e depois nas rádios, TVs e nas crônicas dos jornais. Para os textos impressos, Glauco Keller Villas Boas não era ruim, tanto que aqui, assim o assino, mas, para o rádio, para a TV e para as lives de Internet, é um nome longo. Virei Glauco Keller.

A gota d’água se deu numa ensolarada sexta-feira, dia 12 de março de 2010. Eu não tinha celular à época e estava trabalhando em um Colégio em Araraquara quando, logo pela manhã, surgiu a notícia da tragédia do assassinato do cartunista Glauco Villas Boas. Passei a manhã toda dentro de salas de aula, sem saber do acontecido. Sai de Araraquara e, como de costume, vim para São Carlos para almoçar com o meu querido amigo, professor de Literatura, Itapê. Sempre nos encontrávamos já no restaurante, na Avenida São Carlos, em frente à Praça Coronel Salles. Itapê, em geral, me esperava tomando uma cerveja já na mesa, lendo o jornal do dia que ele pegava no Colégio.

Naquele dia, contudo, quando parei o carro, observei-o na porta do restaurante, com o material ainda debaixo do braço e com aspecto ansioso. Assim que desci do carro, vi o Itapê correndo em minha direção. Sem saber o que estava acontecendo, senti seu abraço apertado e um beijo forte e fraterno no rosto, ambos contendo um grande ar de alívio. Sem falar mais nada, Itapê me disse: “Hoje pela manhã, você morreu por alguns minutos”. Inteirei-me do acontecido e liguei para minha mãe para tranquilizá-la, pois, várias pessoas haviam ligado para sua casa para lhe dar os pêsames e perguntar sobre o horário do meu velório. Deixei, em definitivo de assinar Glauco Villas Boas e inclui o Keller na história por respeito ao Glauco, gratidão ao nome da minha mãe e carinho pelo Itapê.