
● Por Glauco Keller Villas Boas
Na coluna Alternativa A da semana passada, eu abordei aqui neste espaço, o oportunismo de alguns políticos nas comemorações dos títulos Brasileiro e da Copa Libertadores do Flamengo. Na oportunidade abri discussão acerca da forma como a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, subordinada ao senhor governador, tratou torcedores que comemoravam os títulos junto de sua equipe.
Sou educador, professor há mais de 25 anos e, pela minha experiência, posso afirmar que não há como concordar com algumas práticas da Polícia Militar.
Acredito em educação, em ensinamento, em oportunidades de acesso, tudo o que desqualificaria a truculência e a violência de que a PM faz uso em determinadas situações. Em minhas aulas, não grito com meus alunos, pois, a mim, não há lógica em gritar para pedir silêncio. Todos já sabem. É mais trabalhoso, mas o resultado é irreversível. Em pouco tempo, todos aprendem o momento em que devem falar, como devem falar e o momento e como devem ouvir. É possível, mas, leva tempo e disposição.
Nesta semana, em uma festa no bairro de Paraisópolis, na cidade de São Paulo, uma tragédia aconteceu. Alegando perseguir dois homens em uma moto que, segundo relatos, teriam se escondido em meio à multidão de um baile funk tradicional na região, a Polícia Militar do Estado de São Paulo ignorou todas as estatísticas, procedimentos padrão e minimizou os resultados negativos, agindo de maneira equivocada, mas, infelizmente, com vários precedentes, ao cercar, aparentemente, as três saídas do local. Ao que tudo indica, participaram da ação aproximadamente trinta e oito homens criando uma tragédia com nove mortes e vários feridos. A perseguição, que se transformou em uma operação de contenção de distúrbio, viraria, posteriormente, um pisoteamento geral com mortos e feridos.
Contudo, mais do que analisar a postura da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que é violenta com aqueles que questionam ou que não agem de acordo com a vontade do policial, creio que vale questionar, sabendo já de antemão que nenhum policial envolvido no incidente ou mesmo a corporação serão punidos (excetuando-se, talvez, penas alternativas como transferências de áreas ou para trabalhos administrativos), se a mesma prática é comum em festas da alta sociedade paulistana.
Numa entrevista na segunda-feira, o governador João Dória lamentou as nove mortes e todos os feridos na ocorrência, mas deixou claro que a política de segurança pública do estado não será alterada. Tal postura intransigente do governador se dá, sem ao menos, o inquérito e as informações completas com ele envolvidas estarem disponíveis, visto que a corregedoria da Polícia Militar, órgão que assumiu a investigação e que, pasme, seria feita pelo mesmo batalhão envolvido na ação, ainda investiga o caso.
É sabido que a Polícia militar a muito perdeu o respeito que detinha junto à população dos bairros mais populares. Com violência e gerando medo nas pessoas, o policial de hoje, nem de longe, lembra o herói que eu e meus amigos, quando crianças, víamos e com quem queríamos conversar.
Quando eu cursava a antiga oitava série, por um ano inteiro, o melhor dia da semana era a aula com o sargento da Polícia ou do Corpo de Bombeiros que nos ensinava sobre seu trabalho e sobre técnicas de primeiros-socorros. Lembro-me de ficar ansioso pra chegar logo a quarta-feira. Isso não existe mais.
É evidente que que a carga de trabalho excessiva, o treinamento equivocado, a má remuneração, o estresse físico e psicológico são itens que jamais podem ser desprezados ou esquecidos. Contudo, a pergunta que fica é por que os mesmos procedimentos não são utilizados em ações com jovens de classe média alta, brancos que moram em bairros ricos da cidade de São Paulo?
Não é preciso ir muito longe para saber que nos arredores de faculdades particulares, nos bares da Vila Mariana, nas proximidades da Avenida Paulista ou no Jardins, ocorrem festas que reúnem, em um só lugar, música alta, multidões ocupando as ruas e as calçadas, e menores portando drogas e bebidas. Contudo, a abordagem em relação a essas pessoas é diferente e me parece mais correta. O diálogo, a ação sem violência ou a simples presença policial inibem algumas práticas e delitos. Nas favelas, entretanto, os jovens pretos e pobres são torturados como mostram algumas imagens que, a priori, são relativas ao incidente, mas que, ainda que não forem, mostram desumanidades que não condizem com um servidor público.
Conheço vários policiais militares aqui da cidade e neles vejo duas características muito evidentes: não são ricos e querem fazer seu trabalho. Por isso, é imprescindível que a Polícia Militar, enquanto corporação, o governo do estado e outras instituições que possam colaborar com a melhoria das relações sociais, percebam que a educação é trabalhosa, que os resultados são demorados, mas esses são duradouros e adequados. Os policiais são mal-preparados e, aparentemente, têm na violência, muitas vezes gratuita, a única forma de solução de conflitos.
Ora, se o baile estava incomodando, questione-se quem autorizou sua realização (ao que tudo indica havia alvará de funcionamento), mas não embosque jovens que ali estão em busca de divertimento num sábado à noite. Muitos que lá estavam certamente são vítimas de violência familiar, possuem famílias vulneráveis ou trabalham desde os oito ou nove anos de idade para se sustentar. Vida semelhante a de muitos brasileiros, inclusive a de muitos policiais militares que fazem bicos em três ou quatro trabalhos para compor a renda familiar.
Estou certo de que com práticas igualitárias, com mais inteligência e menos violência, a Polícia Militar vai recuperar, rapidamente, o respeito que sua farda pode ter e a admiração que suas patentes sempre trouxeram à sociedade, afinal, a tão destacada sensação de impunidade que a sociedade tem em relação à criminalidade, também ocorre com relação aos crimes cometidos pelo Estado Brasileiro, pois a punição contra excessos de policiais nunca ocorre e todos sabem disso.
Por isso, é essencial que o projeto “licença para matar” não passe no Congresso. A Polícia Militar pode ser melhor do que é – como todos nós podemos, eu como professor, o advogado, o médico ou sorveteiro -, readquirindo os olhares atentos das crianças, o respeito que a corporação e os policiais merecem nos bairros ricos ou nas periferias. Mas, para isso, terá de se reinventar, fazer uma profunda autocrítica e compreender que todos são iguais perante a lei; ricos, pobres, pretos ou brancos, civis ou policiais. Quem usa boné de aba reta e quem não usa. É preciso saber que a empatia e a alteridade são essenciais nas práticas e comportamentos de todos os setores de uma sociedade democrática.
- O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.
Foto: Google Street View
Os artigos assinados nas colunas refletem as opiniões dos autores e não do portal que se manifesta através de editoriais.








