Coluna Alternativa A: Raul: Montezuma do Rock

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Por Glauco Keller

Para conquistar o império Asteca, o espanhol Hernán Cortés teve várias vantagens. Superioridade numérica e armamentista (com canhões, balestras e cavalos que não existiam até então nas Américas),  doenças contagiosas (para os quais os nativos não tinham anticorpos),  alianças contra povos inimigos dos astecas e, acima de tudo, o sequestro do imperador Montezuma.

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Sob o assunto, em uma das passagens históricas do período da conquista das Américas pelos europeus surge a suposta conversa de um furioso asteca com os espanhóis. “Devolvam-nos Montezuma, vocês ladrões, que roubam os deuses dos outros, ou nós cozinharemos vocês em chocolate quente”.

Ed Motta tem como principal ponto em seu currículo ser sobrinho de Tim Maia, o que em tempos de bom senso não deveria lhe valer nem para escrever, nem para cantar canções. O cantor, intérprete do hit Manuel, soul que fez certo sucesso na década de 1990, fala hoje para seus poucos seguidores em redes sociais e, como tantas celebridades de uma só música, vive de polêmicas e histórias do passado. Coleciona discos de vinil, estuda jazz e blues e fala aquilo que ninguém entende, literal e figurativamente.

Há alguns anos, do auge de sua prepotência, o cantor afirmou “minha música não era para ser em português”. Sobre as mulheres, demonstrando profundo descompasso com o pensamento artístico atual, falou “Mulher feia tem que ser mega competente. Se não, é Paula Toller nas cabeças. Linda, burra e sem talento.” Ainda sobre a figura feminina, Motta mandou “Mulher feia tem que cantar igual Sarah Vaughn, se não eu não tenho tempo.” Sobre os aspectos geográficos e culturais do país disse “Estou em Curitiba, lugar civilizado, graças a Deus. O Sul do Brasil, como é bom, tem dignidade isso aqui. Frutas vermelhas, clima frio, gente bonita. Sim, porque oh povo feio o brasileiro”, destacando sua visível xenofobia contra nordestinos e nortistas.

Na última semana, atacou Raul Seixas. Afirmou que o pai do rock brasileiro “tem uma falha de caráter gravíssima na vida dele”, por ter sido funcionário de gravadora. O período a que Ed Motta se referiu – que durou pouco mais quatro anos da vida de Raul que trabalhou para a CBS –  é de conhecimento público  e aparece narrado nas principais biografias sobre Raul Seixas: O Raul que me contaram, de Tiago Bittencourt e Raul por trás das canções, de Carlos Minuano. A história narrada no filme “Raul, o início, o fim e o meio” de Walter Carvalho também deu origem aos famosos versos de Ouro de Tolo em que o roqueiro destaca que “passou fome na cidade maravilhosa”.

Afirmando ainda que Raul é “ruim musicalmente pra caralho”, Ed Motta, em sua live de quase sete horas de duração, afirmou que quem fazia as letras do cantor era Paulo Coelho. Pesquisas acadêmicas indicam justamente o contrário, que Raul ensinou Paulo Coelho, escritor de prosa consagrado, a escrever letra de música. O próprio escritor de O alquimista e O diário de um mago já deu declarações sobre o fato e a dramaturgia do filme “Não pare na Pista”, de Daniel Augusto, mostra como isso aconteceu. Não contente, Ed Motta atacou Elvis Presley e Johnny Cash.

No Brasil, ser Raul é para poucos. Fazer rock na Bahia é para poucos. Fazer música profunda é para poucos. Fazer música profunda popular é para poucos. Abordar temas polêmicos como religião, censura, democracia e sociedade é para poucos. Fazer isso misturando rock com baião, pontos de umbanda, boleros e tangos não é para poucos, é só para Raul que, esquecido pela grande mídia, é amado por seus astecas.

Ed Motta mexeu com o Montezuma errado. Será cozido em chocolate em cada apresentação elitizada que fizer a partir de agora. Como disse meu caro amigo Raulseixista, professor de história e filosofia, Rafael Daniel Jaca, Ed Motta ouvirá, até o final de seus dias, gritos de “Toca Raul” em seus shows para gente bonita em Curitiba. Haverá sempre um preto, um pobre, um excluído que, como os que fizeram o jazz, o blues e o soul, ritmos tão simplistas e encantadores quanto a música do Raul, e nos quais Ed Motta se diz especialista, gritando para lembrá-lo de que é preciso mais do que canhões, armas de fogo, cavalos ou balelas para derrubar o mítico Raul Seixas. Em poucos dias Ed Motta voltará ao ostracismo e a infelicidade sua e dos seus. Nunca será Raul. Já o maluco beleza, se estivesse vivo, olharia nos olhos do elitizado Ed Motta e cantaria:

Sou o que sou

porque vivo da minha maneira…

Você procurando respostas olhando pro espaço,

e eu tão ocupado vivendo…

Eu não me pergunto,

Eu faço!*

O autor é professor e jornalista.

  • Versos da canção “No fundo do quintal da escola”, de Raul Seixas e Claudio Roberto, lançada pela gravadora Warner Music, em 1977.

*As opiniões do texto refletem o que pensa o autor, o São Carlos em Rede se expressa através de editoriais assinados.