Coluna Alternativa A: Raul vive

●  Por Glauco Keller Villas Boas

As décadas de 60 e 70 e não de 80, como alguns dizem, marcam a popularização do Rock no Brasil. Entretanto, já em 1959, uma mulher gravaria o “primeiro rock” brasileiro: Celly Campello com a versão brasileira de Stupid Cupid ganhava as paradas e os Secos e Molhados, os Mutantes e à talentosa geração de 80 que inclui Legião Urbana, Capital Inicial e Ira entre outras bandas.

Entretanto, foi em meados da década de 70 que um baiano chamado Raul dos Santos Seixas mudaria o curso da música verdadeiramente popular brasileira. Formado em filosofia, com inglês fluente, Raul começava a produzir um rock puramente nacional sem abrir mão dos acordes do maior ritmo musical do mundo. Chocando o mundo da música, Raul Seixas receberia vários apelidos ao longo de sua carreira: pai do rock brasileiro, metamorfose ambulante ou, simplesmente, o Maluco Beleza. Mas, afinal, o que Raul tinha e ainda tem de diferente dos outros?

A música brasileira, talvez mundial, é marcada por uma escolha que advém de dois caminhos. O artista escolhe um. Ou produz uma obra que dialogue com a reflexão, com a crítica e seja profunda, mas elitizada culturalmente, ou, então, empobrece a musicalidade e a temática de seu produto (vide os Sertanejos Universitários), mas se torna popular, comercial e ganha dinheiro. É a indústria cultural.

Raul, talvez seguindo seu instinto e sua vanguarda fez o seu próprio caminho, (“o caminho do risco é o sucesso”, verso da canção Caminhos) e juntou as duas possibilidades: foi simples e profundo. Nenhum artista brasileiro, até hoje, foi tão capaz de fazer música popular, com refrãos de fácil memorização e rimas simples com profundidade temática e musical como Raul. Ao analisar a obra do Maluco Beleza é possível encontrar uma variação de gêneros musicais (rock, blues, música caipira, baião, bolero, valsa entre outros) e de temas (religião, política, filosofia, amor, misticismo, sentimentos, críticas sociais, reflexões acerca da origem da vida etc) que nenhum músico brasileiro foi capaz de fazer. Tudo isso com uma simplicidade que encanta e fala para o professor, para a empregada doméstica, para o médico, para o catador de lixo ou para a criança.

O ano de 2020 marca trinta e um anos de morte do homem Raul Seixas. Naquele domingo de agosto de 1989, no Edifício Alliança, na Rua Frei Caneca, em São Paulo, o Raulzito dava adeus a esse mundo e deixava um legado artístico e uma legião de fãs (o Raulseixismo se torna cada vez mais um estilo de vida) sem precedentes.

E…pasmem, ano passado aconteceu mais uma edição do maior festival de música do mundo, o Rock in Rio e Raul, mais uma vez, foi ignorado. Em todas as edições do Rock in Rio, Raul foi esquecido. Lembro-me, apenas, dos Detonautas terem tocado Metamorfose Ambulante e do Big Boss Bruce Springsteen ter aberto seu show no Palco Mundo, em 2013 com Sociedade Alternativa, levando uma multidão à loucura.

Mas, por que Raul, considerado o pai do rock brasileiro, é ignorado pela grande mídia e pelo maior festival de música do mundo? Raul falava para o pobre, para o bêbado, para o drogado, para o doente, para e sobre o nordestino, para o  “loser”, para o desenganado, para o excluído socialmente, para o rebelde, para as minorias, para os pretos, para os torturados pela ditadura militar e…isso a elite cultural financeira não vê como um produto final vendável.

Elitizado, o rock nacional começa a dar lugar ao R.A.P. (Rhythm and Poetry), ao Hip-Hop, ao tecnobrega de Gaby Amarantos para falar de pobreza, de exclusão, de violência policial, de assassinatos de jovens pretos e pardos nas periferias brasileiras e isso, só se for no palco Sunset, porque no Palco Mundo não tem Raul, não tem reflexão e não tem inclusão. O negócio é esse, já diria o Maluco Beleza!

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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