Coluna Alternativa A: Reencontro

A escola Eugênio Franco em São Carlos

Por Glauco Keller

Como muitos da minha geração, estudei a vida toda em escolas públicas. Até chegar a Unesp de Araraquara, passei pelo Instituto de Educação Álvaro Guião no Ensino Médio e antes saboreei a convivência do pré-primário, primário e ginásio na E.E.P.G. Eugênio Franco.

Prédio imponente que data de 1906, localizado na Rua José Bonifácio, a escola marcou e marca a vida de muitos jovens desde sua fundação. Ali fiz amigos, aprendi a ler e a escrever, comecei a me compreender como cidadão e me senti parte de algo maior do que a minha família e a rua em que eu morava.

Volto obrigatoriamente ao Eugênio Franco a cada dois anos para votar e, em cada retorno, meus olhos de adulto se transformam novamente na criança que ali cresceu. Sinto os velhos cheiros, vejo os velhos amigos correndo no pátio, saboreio o gosto do leite com chocolate e do sagu da merenda. Lembro da Margarida, senhora que tinha a obrigação de coibir nossos excessos nos intervalos, recordo do Ruy e da Shirley, funcionários queridos, e sempre tenho uma estranha sensação: a de que a escola diminuiu com o tempo. As escadas antes gigantescas e quase “insubíveis”, os corredores compridos e as grandiosas salas de aula agora me parecem mais acessíveis e me permitem atingi-los com poucos passos.

Dos primeiros professores, lembro-me da seriedade, do encantamento e do acalanto. Sentia-me acolhido e protegido por todos eles. Minha primeira professora, ainda no pré-primário, a durona Dona Lia, alfabetizadora à moda antiga, que não permitia que chegássemos suados à sala de aula após o recreio. Dona Nilva Ferrari, querida professora nos primeiros anos do primário, a saudosa Dona Yara, com seu incomparável laque no cabelo, fusca vermelho e conhecimento transbordante. Todos, sem exceção, guardo no peito e na memória.

A chegada à quinta série – hoje sexto ano do Fundamental II – trouxe novos amigos, alguns que trago até hoje, novos medos e um monte de professores. Outra Dona Nilva, agora só de língua portuguesa, o saudoso professor Ivanildo, de História, a Maria Helena, também de português, a Claudete, de inglês, e tantos outros que povoaram minha vida e imaginação e despertaram minha curiosidade moldando meu ser.

Dentre esses, o Eugênio Franco me deu a honra de conhecer e ter sido aluno do professor Ercílio Araújo Filho, mestre das Ciências da Natureza, que carregava o saber no olhar e no coração. Ercílio foi nosso tutor durante três anos do ginásio. Com ele, aprendi sobre o meio-ambiente, quem eu era e o que representava no planeta; conheci mais meu corpo, as plantas e os animais. Ri, chorei, me emocionei e terminei o Ginásio indo embora para outra escola – que viria também a me marcar -, levando comigo a certeza de que um dia eu seria como meus mestres.

Alguns anos depois, prestaria vestibular e esqueceria as ciências da natureza para mergulhar na ciência das Letras e das palavras. Professor formado, concretizei a profecia e o desejo despertados no passado e descobri que levava comigo a sabedoria de tudo o que meus mestres tinham me ensinado, mas também de coisas que eles nem imaginavam que estavam me ensinando. Meus velhos professores, sem saber, me deram uma profissão e me deram o meu futuro.

Há duas semanas, fazendo o meu tradicional aquecimento para a corrida no parque do Kartódromo, senti meu coração disparar e minha cabeça voltar no tempo ao ver meu velho amigo e professor fazendo a feira. Mergulhei no passado, sentei-me na pequena carteira na sala de aula, ao ouvir o sotaque mineiro do professor Ercílio que ainda carrega a jovialidade e o brilho no olhar que tanto me encantaram nos anos oitenta.

A conversa durou pouco. Depois, no youtube, descobri que sua história está gravada no livro “O esforço para vencer”. Corri sorrindo. Percebi que algumas pessoas nunca se vão; por mais que fiquem longe estão sempre por perto, porque mesmo que a gente não perceba, carregamos um pouco delas com a gente. Do Ercílio, sempre carreguei muito.

  • O autor é professor e jornalista.