Coluna Alternativa A: Sala dos professores

  • Por Glauco Keller Villas Boas

No início do isolamento social por conta da pandemia, a leitura que a sociedade em geral fez de professores do Brasil todo foi a de que éramos um grupo de vagabundos que não queria trabalhar. Arautos liderados por uma política estatal que desvaloriza a educação reflexiva e crítica e prega memorizações e repetições inócuas e desnecessárias vociferaram contra professores e professoras.

Num segundo momento, ao perceberem o trabalho dos educadores na tentativa hercúlea de ensinar os filhos dos próprios críticos, baixaram o tom. Se não aceitaram, ao menos compreenderam que de casa, e, mais recentemente, no modelo híbrido, o trabalho era bem maior.

Nos últimos meses, professores de todo o país se tornaram especialistas em plataformas de ensino a distância, aprenderam a lidar com o zoom, teams, googlemeet entre outras plataformas. Criaram estratégias que adequassem suas aulas ao novo modelo e, rapidamente, mostraram a capacidade adaptativa da escola.

Eu fui um deles. Tive de me virar para ficar longe da sala de aula. Recentemente, voltei a ela e me senti em casa. Percebi que, embora tenha me adequado ao ensino a distância, me mover e circular pela sala de aula e olhar nos olhos dos alunos me faz me sentir mais professor do que atrás da câmera.

Descobri, contudo, a falta que me fazia outro ambiente escolar: a sala dos professores. É bem verdade que ela já não é como foi, devido aos smartphones que atraem os olhares de todos e, por vezes, deixam o ambiente tão silencioso quanto uma sala de aula em dia de prova. Mas, independentemente dos tempos serem outros, todo pai e toda mãe deveria ter o direito de frequentar, pelo menos uma vez na vida, uma sala de professores.

O ambiente é sagrado para nós educadores. Ali, o conhecimento aflora e irradia através de histórias e de troca de experiências dentro das ciências, das letras e da matemática. Cada vez que me sento para um café em uma sala de professores, me renovo e deixo o cansaço esquecido pela curiosidade de ouvir uma história que não conheço sobre a relação conflituosa de Tesla e Thomas Edison ou de descobrir a estrutura de uma língua codificada chamada Zenit Polar, ou, ainda, de receber indicações de livros, filmes e séries de colegas que, em sua ânsia de ensinar, levam suas aulas para a sala dos professores. Por vezes, contamos histórias engraçadas e compartilhamos experiências e vivências, discutimos política e falamos de nossos anseios e angústias.

Os quinze minutos de intervalo são poucos, em especial quando somos interrompidos por uma dúvida de última hora de um aprendiz que vai fazer prova na próxima aula. Um querido amigo que fiz em Ribeirão Preto, corintiano até a alma, negava-se veementemente a sanar dúvidas depois do sinal batido. Dizia ao estudante: “Querid@, o Marcelinho cobra falta no intervalo?” Quando faleceu, foi homenageado pela turma com a frase em uma camiseta e letras maiúsculas para a palavra FALTA.

Outra vez, em Araraquara, num intervalo comum entre professores do Ensino Médio e do Ensino Fundamental, a sala estava cheia e o papo fluía quando pancadas desesperadas na porta interromperam a conversa. Uma professora do segundo ano do Ensino Fundamental, ao abrir a porta, se deparou com uma criança de uns sete anos de idade que, sem titubear, perguntou:

“Tia, posso pegar um copo?”

Achando que o menino deveria ter sido um pouco mais educado, a professora, sem rodeios, o incentiva num novo pedido:

“Por…….?”

“Pôr suco”, respondeu o garotinho sedento, não compreendendo a deixa para pedir “por favor”, e gerando risos em todos.

  • O autor é jornalista e professor.

Foto: Gabriela Jabur/Ag. Brasília