Coluna Alternativa A: Sebastianismo à brasileira

Dupla de ataque do PSG

●  Por Glauco Keller Villas Boas

A equipe do Bayern de Munique venceu a Champions League no último domingo batendo o Paris Saint-Germán, do brasileiro Neymar. Com a vitória, a equipe alemã chegou a sua sexta conquista continental, só que desta vez com aproveitamento de 100%, pois o Bayern venceu todos os jogos da Copa dos Campeões em sua versão 2019/2020.

Ainda assim, o nosso olhar de torcedor, educado sob o prisma do brasileirismo, nos faz achar que a equipe alemã não é tudo isso e que o PSG só não ganhou o título, porque o atacante Kylian Mbappé perdeu um gol que não poderia ser perdido.

Mas, afinal, de onde vem nossa necessidade de não reconhecer os feitos de uma equipe como o Bayern?

Obviamente, essa não é uma resposta fácil, mas, creio, podemos compreender tal comportamento através da forma como enxergamos o futebol, a política e a religião.

No século XVI, auge da expansão ultramarina, Portugal vê seu jovem rei, D. Sebastião (1554-1578) desaparecer na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África. Como seu corpo nunca foi encontrado, o mito de sua volta triunfal em uma manhã de nevoeiro emergia numa tentativa de crer que esse seria o herói, jovem e destemido que traria Portugal de volta aos seus dias de glória. Nascia a vã esperança do “Sebastianismo”.

A figura do herói mítico na Literatura, de maneira geral está ligada à tragédia e, nesse sentido, talvez por nossa aculturação portuguesa, somos aparente e naturalmente compelidos a esperar por um salvador. Na política o messianismo da esquerda em torno de Lula e da direita em torno de Bolsonaro são os mais recentes exemplos deste fato, afinal, esperar um salvador é mais fácil e da menos trabalho do que colocar em xeque nossas crenças pessoais e mudar hábitos arraigados historicamente.

Assim, ao vermos a equipe do Bayern bater todos os seus adversários incontestavelmente sem possuir um grande herói, no futebol, identificado na figura do craque, nos tornamos incrédulos e, naturalmente, tendemos à negação.

Prova cabal disso é que, ao analisarmos as Copas do Mundo vencidas pela seleção Brasileira, veremos que a construção da figura do herói romântico salvador policarpeano esteve sempre presente: Pelé, Garrincha, Romário ou o mais icônico de todos, Ronaldo Nazário, nossa Fênix que, diferentemente, de D. Sebastião, levantou-se e trouxe a Copa frente aos olhares da descrença. Quem não se lembra da campanha publicitária que circulou logo após a Copa de 2002 e trazia o Fenômeno sob a letra da canção “Tente outra vez”, de Raul Seixas? O slogan era “Sou brasileiro e não desisto nunca!”

A final do último domingo tinha todos os elementos para o surgimento de um novo herói. De desacreditado e ironizado, o pai Neymar agora estava ON e a vitória na Champions seria o passo final para sua maior busca pessoal, o título de melhor jogador do mundo. Infelizmente, para Neymar e para os milhares de brasileiros que insistem na necessidade da existência do herói, o futebol coletivo e eficaz sem craques do Bayern venceu, lembrando a épica frase de Garrincha dita ao técnico da seleção brasileira, Vicente Feola, em 1958. Na ocasião, durante a preparação para o jogo contra a então União Soviética, mais nova superpotência que havia vencido os Nazistas, lançado o satélite Sputnik e agora tinha grandes aspirações no futebol, o treinador da seleção tentou criar uma jogada mágica para surpreender os adversários.

 

“O Garrincha dribla o primeiro, toca para o Vavá e segue para o fundo; Vavá dribla o volante russo e toca para o Zagallo, que corta para o meio e devolve para o Garrincha; Da linha de fundo, Garrincha dribla o lateral e cruza para Pelé, no segundo pau, fazer o gol de cabeça!”

 

Do auge de sua ingênua indisciplina, Garrincha perguntou: “Tá legal, seu Feola… mas o senhor já combinou com os russos?”

Da mesma forma, faltou o Neymar e os brasileiros ansiosos e carentes de um novo herói, combinarem com os alemães para que o enredo do mito questionado ressurgido das sombras pudesse estar completo. A disciplina tática e a coletividade do jogo têm mostrado nos últimos anos que os heróis começam a perder lugar e por isso é essencial que sejamos capazes de deixar de lado nosso Sebastianismo e democratizar os feitos ou as derrotas, pois, do contrário, como os portugueses, teremos um futebol que viverá de lendas e histórias de um período glamoroso que, infelizmente, ficou para trás.

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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