Coluna Alternativa: A Semana de 22 hoje

Os modernista de 1922

Por Glauco Keller

A “Semana de Arte Moderna de 22” foi o nome dado a um evento que aconteceu há exatos cem anos no Theatro Municipal de São Paulo.  Agora, ao completar seu centenário, passa por necessário e justo revisionismo.

Liderada pelo escritor Mário de Andrade e contando com outros jovens agitadores culturais, o evento entrou para o ideário da historiografia brasileira como revolucionário marco na história das artes brasileiras. Os pintores Anita Malfatti e Di Cavalcanti, o escritor Oswald de Andrade e o músico Heitor Villa-Lobos, entre outros, têm sido estudados e reverenciados como artistas que deram um novo rosto à arte brasileira.

Sob novos olhares, contudo, surgem críticas ferrenhas aos artistas modernos. Por muitos chamados de elitistas e, em algumas publicações, de preconceituosos, misóginos e racistas, afinal, nas principais fotos oficiais do evento não há negros ou mulheres, esses ícones da arte brasileira se viram em meio a uma discussão acalorada que tomou periódicps e redes sociais. Mas afinal, o que, nesse contexto, deve ser levado em conta e o que deve ser descartado na análise daquilo que foi o evento?

Primeiramente, é importante destacar que o evento teve, de fato, destaque restrito a São Paulo no que concerne à cobertura da mídia e dos jornais da época. No restante do Brasil, embora já houvesse artistas trabalhando na perspectiva moderna que envolvia abstração e influências de movimentos de vanguarda europeia como dadaísmo, cubismo e surrealismo; a Semana de Arte Moderna teve pouco destaque. Mesmo em São Paulo o evento viu-se restrito ao meio artístico e cultural da cidade.

Outra crítica ao mito da semana refere-se a sua elitização, afinal todo o “núcleo duro” do evento era formado por jovens da elite paulistana que foram patrocinados por barões do café do estado, inclusive no aluguel do Theatro Municipal de São Paulo. Eram, em sua maioria, homens brancos das classes mais abastadas.

A Semana foi, entretanto, a primeira evidência pública de que alguns artistas pensavam em romper com a chamada arte academicista de origem europeia. Só eram considerados artistas aqueles que cursavam a Academia de Belas Artes e nela se graduavam, seguindo rígidos padrões estéticos e comportamentais. Os artistas nela envolvidos, e outros que já participavam de um movimento moderno há alguns anos no país, pensavam em romper com este modelo. Segundo eles, retrógrado, ultrapassado e conservador, além de ser copiado da Europa. Enxergavam na arte indígena, africana e do interior brasileiro produções que referendavam essa linha de pensamento.

Pensando-se sob o aspecto histórico, é evidente que esses fatos por si só não justificariam que a cidade de São Paulo parasse toda para pensar em arte, ainda que fosse durante uma semana. Não faríamos isso hoje, cem anos depois. A população da capital à época era de pouco mais de 500 mil habitantes e o seu primeiro arranha-céus, o Edifício Martinelli, só viria a ser inaugurado em 1929. Para que se tenha uma ideia, o índice de analfabetismo no Brasil na década de 20 do século passado passava de 80%, as mulheres não tinham direito a voto e estávamos completando apenas trinta anos da Abolição da Escravatura (O Brasil foi o último país das Américas a abolir definitivamente a escravidão de pessoas negras). Por isso, é evidente que o evento foi restrito a uma elite que podia se preocupar com arte, pois tinha comida no prato, vestimentas para usar e um teto seguro sob suas cabeças. Seria impensável que uma Semana de Arte Moderna tivesse repercussão nacional ou mesmo local entre a população geral. Mas, então, como cem anos depois, chegamos a conhecer, a celebrar e a questionar o evento?

Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas, com seu intento de valorização dos aspectos nacionais, fez uso político do evento destacando sua valoração na arte brasileira, bem como, indiretamente, utilizando conceitos do Movimento Antropofágico liderado por Oswald de Andrade que propunha consumir a arte estrangeira sim, mas degluti-la em algo tipicamente nacional. Mais tarde, o evento seria relembrado em 1945 por ocasião da morte de Mário de Andrade e, durante o Regime Militar, mais uma vez com o viés do olhar nacionalista e da “patriotada” que foram os anos de ditadura, o evento seria novamente usado politicamente por gente que sequer leu um livro de Mário de Andrade ou viu uma pintura de Tarsila.

Ao chegar ao seu centenário, revisões literárias apresentam novos olhares que são extremamente benéficos para que se conheça, exatamente, o que foi o evento, quais suas intenções, personagens e repercussões. Mas, os movimentos excessivamente identitários, muitos, também sem conhecer os artistas e as obras, apontam os dedos para a Semana e começam a sugerir cancelamento de obras e artistas envolvidos no evento.

Nesse sentido, creio que em qualquer análise da Semana de 22 e do Movimento Modernista, devemos obrigatoriamente ter em mente o contexto histórico e social de época. Parece-me óbvio que em um evento semelhante hoje, cem anos depois, haveria mais pessoas negras, arte indígena, representatividade social e LGBTQIA+, produções artísticas da periferia entre tantas outras inclusões necessárias, não simplesmente na arte, mas, também na política e na sociedade.

Contudo, para um país patriarcal e misógino, o começo do século XX trazia preconceitos que mesmo depois de cem anos não seriam desfeitos. Não haveria aceitação social por parte da classe dominante de uma Semana inclusiva com pretos, artistas indígenas e Mario de Andrade, muito criticado, não poderia assumir sua orientação sexual – muitos gays não podem hoje, cem anos depois. Obviamente que artistas como Pixiguinha e outros tantos sambistas e produtores culturais das comunidades do país ficaram de fora, mas, infelizmente, é o que se tinha para aquele momento. A sociedade brasileira era inculta, patriarcal, preconceituosa e os as minorias excluídas precisavam de homens brancos de terno e gravata, oriundos da elite, que os representasse. Nos EUA, mais de 30 anos depois, a primeira gravadora de música negra (blues e jazz), a Chess Records, foi aberta por um judeu polonês branco. Leonard Chess promoveu artistas como Etta James, Little Walter, Chuck Berry, Howling Wolf e Muddy Waters e, pouco antes de vender a gravadora, confidenciou a amigos: “Ninguém deixaria um negro fazer o que eu fiz na década de 40”.

Assim, cancelar os artistas modernos por não terem feito o que gostaríamos que eles fizessem há cem anos, e que não conseguimos fazer agora, é tão radical quanto não ler Mário de Andrade, não conhecer o Manifesto Antropofágico de Oswald, nem ouvir suas ideias na musicalidade da Tropicália da década de 70, mitificar o evento ou criticar sua mitificação.

Cabe a nós, a partir de agora, compreender que o revisionismo histórico quando feito por acadêmicos, pesquisadores e especialistas no assunto é necessário e bem-vindo, mas o cancelamento por si só não ajuda e entender os aspectos culturais e políticos do evento e apaga uma história que bem ou mal chegou até aqui.

  • ●        O autor é professor e jornalista