Coluna Alternativa A: Seu sorriso chegava antes

Rodrigo tinha 45 anos

Por Glauco Keller Villas Boas

A perda do jornalista, músico e apresentador, Rodrigo Rodrigues foi mais significativa do que possa parecer. Rodrigo morreu aos 45 anos, na terça-feira 28/07/2020, vítima de complicações causadas pela COVID-19. Jovem, cativante e inspirador, Rodrigo foi mais um no caminho da “gripezinha”.

Mas, afinal, por que tantos canais esportivos de todo o país gastaram seus preciosos minutos para falar do apresentador em uma semana de fases finais e de clássicos estaduais? Por que Sportv, ESPN, Fox-Sports e Esporte Interativo fizeram links simultâneos ao vivo com jornalistas de cada uma das casas para falar do apresentador?

A resposta é simples. Sem perceber, Rodrigo Rodrigues, moço de sorriso farto e bom-humor cativante, mostrava a todo o Brasil um pouco mais de cada jornalista esportivo.

Dentro dos cursos de jornalismo e, também, das redações de TVs, rádios, jornais e portais, existe um preconceito velado, um estereótipo injusto sobre os jornalistas esportivos. Esses são, para muitos pseudoespecialistas em economia, finanças ou política, jornalistas de segunda classe. Considerando-se, por vezes, elite do jornalismo, alguns comunicadores, apresentadores e comentaristas dessas áreas supostamente mais nobres não conseguem enxergar a poesia existente em cada movimento de um corredor numa disputa de atletismo, por exemplo. Não percebem a prosa realista na história do corredor que deixa a favela e o país que o esqueceu para beijar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Não enxergam a Semana de 1922 numa tática revolucionária e contestadora de um treinador de futebol, nem uma obra renascentista de culto ao corpo num gol antropocêntrico do Cristiano Ronaldo. Não enxergam os piercings e a jaqueta de couro do punk rock no rosto marcado e suado do Carlitos Tevez. Não veem a importância do Lewis Hamilton ou do Lebron James para os movimentos antiraciais em todo o mundo. Não valorizam nada que não seja mercadologicamente útil e funcional e a arte do esporte, às vezes, não o é.

Mas, de tempos em tempos, o jornalismo esportivo nos brinda com um Juca Kfouri, um José Trajano, um Celso Unzelte ou um João Canalha. Gente que, para usar o linguajar do momento, “pensa fora da caixinha”. Gente que fala de política, de cultura, de arte, de ciência e que valoriza o conhecimento e o pensamento crítico. Rodrigo era um deles. Artista, apreciador de boas amizades, enxergava no esporte algo mais do que a competição esportiva. Sorria e brincava com o convidado, com o parceiro de bancada e com o espectador. Fazia com que nos sentíssemos seus amigos, mesmo sem nunca termos estado ao seu lado. Tive a oportunidade de com ele estar em uma única ocasião. Foi como se fôssemos amigos de infância.

Com simplicidade e gentileza, Rodrigo jogava na cara da hipocrisia parnasiana, conservadora e preconceituosa da mídia “intelectual” do país, o sorriso doce e gentil da sabedoria humilde. Foi capaz de ser leve ao falar sério. Foi capaz de sorrir sem infantilizar-se a si ou ao espectador.

Meu compadre, Pedro Guilherme, o PG, narrador da CBN, afirma que Rodrigo deixou a TV esportiva menos sisuda. Rodrigo mostrou a todos os preconceituosos um pensar e um olhar que foram além de seu gigantesco coração. Quebrou estereótipos e preconceitos. Mostrou, em épocas de gritos e gestos violentos que, como a Parvana na animação “A ganha-pão*”, “É preciso levantar suas palavras, não sua voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não os trovões.” Rodrigo o fez com sabedoria e brilho no olhar, afinal, como disse o comentarista Mario Marra, “Não importava aonde Rodrigo ia, seu sorriso sempre chegava antes.”

 

 

*A Ganha-pão. EUA, 2017. Direção de Nora Womey. Animação ganhadora do Oscar.

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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