Coluna Alternativa A: Sonhar não custa nada

Estádio Alfredo Jaconi em Caxias do Sul/Twitter Brasileirão
  • Por Glauco Keller Villas Boas

Há duas semanas, aqui neste espaço, eu discutia o eventual boicote da seleção Brasileira à Copa América. Naquele momento, ainda “com o pé atrás”, os brasileiros de bom senso torciam por um ato histórico que acabou não vindo. Descobrimos depois que a razão do descontentamento dos jogadores não era a pandemia da COVID-19 ou os quase quinhentos mil mortos, mas a relação com o ex-presidente da CBF, Rogério Caboclo.

O boicote virou manifesto e foi rapidamente esquecido como a própria Copa América. Embora o Brasil apresente uma boa seleção montada pelo Tite, a competição tem os piores índices de audiência da história, com patrocinadores que se recusaram a estampar suas marcas nos estádios, sem público e com as transmissões dos jogos perdendo para programas de auditório e filmes.

A notícia do futebol desta semana, além dos belos jogos da EURO, veio, no Brasil, mais uma vez fora de campo: dezenove dos vinte clubes da série A do campeonato brasileiro anunciaram a criação de uma Liga para organizar um torneio nacional já a partir de 2022.

Embora, particularmente, ainda enxergue a iniciativa com incredulidade, minha ingenuidade me faz sonhar que a unidade das assinaturas dos clubes possa se tornar parceria também na realização do campeonato.

Legalmente, os clubes têm respaldo da Lei Pelé para tomarem para si a organização de um campeonato nacional, contudo, as Federações locais serão certamente pressionadas pela CBF e poderão, num efeito cascata, pressionar seus clubes para a não criação da Liga. Caso ela seja criada, o calendário do futebol brasileiro deverá mudar e os campeonatos estaduais,  o maior produto das federações estaduais, deverão perder espaço. Afinal, não haverá cabimento uma Liga Nacional anual forte perder quatro ou cinco meses de calendário para campeonatos regionais.

As vantagens para a criação da Liga Nacional de futebol no Brasil são muitas, mas, dentre elas, eu destacaria duas. Em primeiro lugar a profissionalização na realização do campeonato e dos jogos. A arbitragem poderá ser profissionalizada, o calendário será menos agressivo à integridade física dos jogadores, possibilitando, assim, melhores espetáculos, e as premiações por participações e títulos poderão ser muito maiores.

Em segundo lugar, a venda dos direitos de transmissão para o exterior. O futebol brasileiro ainda é o maior futebol do mundo, embora a falta de organização tenha gerado, em vários setores, descrédito dentro e fora de campo. Todos querem assistir aos futuros craques que brilharão nos gramados europeus, além de querer rever craques que, outrora, lá já brilharam.

O futebol de clubes sempre foi visto pela CBF como uma obrigação e não como um produto lucrativo e de potencial gigantesco. A grande menina dos olhos da CBF é a seleção brasileira, afinal, é com ela que a entidade ficou bilionária e os clubes são, desta forma, vistos como um projeto secundário.

A CBF nunca se interessou, por exemplo, em vender os direitos do campeonato brasileiro para a América Latina. Colômbia, Equador, Argentina, Paraguai, Uruguai entre outros tantos países apenas aqui na América do Sul são mercados colossais a serem explorados. Os torcedores da América Espanhola querem ver as equipes brasileiras jogarem, assim como queremos ver o Boca, o River ou o Nacional do Uruguai.

Imaginem os grandes canais internacionais de esporte transmitindo os jogos das equipes brasileiras para Portugal, França, Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra. As possibilidades de lucro com direitos de transmissão e imagens são epopeicas e para os clubes a negociação de seus atletas, a criação de networking e a visualização de suas marcas e produtos será muito maior.

A Copa de 2014, embora tenha sido muito criticada pela corrupção nela envolta, em especial em projetos de mobilidade pública, deixou um legado muito positivo desportivamente falando: estádios de primeiro mundo e gramados de excelente qualidade.

Às vezes, as mudanças são tão boas que, rapidamente, nos adaptamos a elas e não paramos para pensar como as coisas eram faz pouco tempo. Nos esquecemos, por exemplo, que há menos de dez anos, todos os gramados brasileiros eram cercados por alambrados ou fossos e nos parecia inimaginável ver os torcedores sentados a um metro de distância do campo sem que interferências como agressões ou arremessos de latas de cerveja acontecessem. Hoje, nas séries A e em boa parte da B, os torcedores sentam-se em cadeiras e possuem boa estrutura de instalações nos estádios, como lanchonetes e sanitários bastante razoáveis e invasões de campo não são mais vistas.

Por isso, não custa sonhar com a realização de uma Liga unificada e profissional que traga organização ao maior campeonato de clubes do mundo: o brasileiro. Para fazer é preciso querer e se os clubes brasileiros quiserem, o céu será o limite.

  • O autor é jornalista e professor.