Coluna Alternativa A: Triste fim de um copo na mesa

Lima Barreto: um dos maiores da literatura nacional

Aqui em casa lemos muito e assinamos dois clubes de livro que, para nosso deleite, chegam a cada quinze dias. Uma delas é a Tag – experiências literárias quepasseia por lançamentos e clássicos da literatura universal e traz, todo mês, um brinde que se correlaciona com a obra enviada aos assinantes.

O brinde deste mês me gerou muito prazer. Um copo americano típico. Daqueles em que tomamos pingados nas padarias e cachaças nos bares. Adoro tomar meu café preto sem açúcar nele e costumo brincar que o café só tem sabor se for servido num copo americano que, a título de curiosidade, só tem esse nome, pois as primeiras máquinas usadas em sua fabricação no Brasil vieram dos Estados Unidos. Nunca se viu um desses copos na terra do Tio Sam.

O Copo, homenageando grandes escritores brasileiros, trouxe uma frase que remetia a uma grande obra da literatura nacional. Aqui em casa, fomos agraciados com a frase “Triste fim de um Copo na Mesa”, numa alusão óbvia ao livro pré-modernista “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, que narra a saga de um anti-herói quixotesco ingênuo e cego em seu patriotismo descabido que geraria o adjetivo policarpeano para descrever características semelhantes a do personagem.

Entretanto, num mundo de pouco diálogo e de cancelamentos (ainda vou falar especificamente sobre o assunto aqui), a escritora Lilia Schwarcz, uma das maiores especialistas na vida e obra de Lima Barreto, alertou a Tag que o autor era alcoólico e morrera jovem vítima de complicações de saúde oriundas do vício na bebida. 

O alerta da escritora foi rapidamente ouvido pela empresa que enviou a todos os seus assinantes uma mensagem informando que não tinha conhecimento do problema de saúde vivido por Lima Barreto e que a intenção da frase no copo era homenagear a grande obra do escritor.

Problema resolvido através do diálogo e sem a necessidade de cancelamento da assinatura ou de execração pública da empresa que nos brinda com novas e velhas obras nacionais e internacionais. Fico aqui pensando se não é possível racionalizar um pouco a passionalidade dos cancelamentos das redes sociais e tentar compreender que todos nós, em algum momento da vida, sejamos figuras públicas ou não, somos ou fomos passíveis dos tais cancelamentos, afinal, creio que mais erramos do que acertamos, ainda que não deliberadamente. Entretanto, se formos julgados por um tribunal de internautas sob o prisma da emoção e da passionalidade, seremos todos excluídos das relações sociais virtuais e mergulharemos num ostracismo pessoal e injusto.

  • O autor é professor e jornalista.