Coluna Alternativa A: Um país de muitas palavras II

Por Glauco Keller

Há duas semanas falei sobre os estrangeirismos que ajudam a moldar os idiomas. O italiano e o francês durante vários anos contribuíram para que a língua portuguesa falada no Brasil tivesse termos e sotaques tão especiais e distintos daqueles do português africano ou nativo de Portugal. Antes disso, os idiomas indígenas se mesclaram com tamanha força a nossa língua que deixamos de percebê-los frente a sua naturalidade.

Através do triste tráfico negreiro em que milhares de homens e mulheres negras foram sequestrados em seus países e escravizados sob a justificativa de que eram seres humanos inferiores, vimos, também, nosso idioma abrir os braços para termos como samba, dengo, umbanda, cafuné ou moleque que nos brindam com uma sonoridade deliciosa e chegam a nos fazer esquecer sua razão de aqui existirem.

Hoje, contudo, devido a fatores financeiros do neocolonialismo cultural imposto pelos Estados Unidos em todo o ocidente, mas também à facilidade de compreensão linguística da língua inglesa, vemos os termos do idioma anglo-saxão mesclarem-se de maneira quase imperceptível à língua portuguesa via músicas, cinema, produtos, jogos e, em especial, informática. Games, fast food, backup, download, site entre tantos outros são termos comuns em nossa vida e ajudam os falantes a se comunicar de maneira mais clara, precisa e sem ruídos.

Há, contudo, ironicamente, algum sentido natural de auto-proteção em cada idioma. Uma reação instintiva aos exageros dos estrangeirismos que podem modificar uma língua de maneira tão significativa que chegam a descaracterizá-la. O português, por exemplo, indica o infinitivo – quando o verbo não está conjugado – com as terminações –ar, -er, -ir e –or. Cantar, correr, sentir e compor expressam ideias de estados ou ações, mas não expressam os tempos em que essas ações estão acontecendo.

Quase que diariamente criamos novos verbos que vêm pelas veias e artérias que aqui já mencionei. Nenhum verbo novo, entretanto, é formado em português com as terminações –er, -ir ou –or. Todos esses anglicismos são da primeira conjugação, terminam em –ar. Escanear, deletar, bipar, boxear, nocautear ou shipar. Parece que a língua portuguesa está dando um basta e dizendo “estrangeirismo tem limite”.

Partindo da premissa de que a melhor forma de aprender é ouvir, as viagens internacionais são, via de regra, a melhor maneira de aprender novos termos e novos idiomas. Em 2011, passamos um tempo no Texas e minha filha, então com três anos de idade, misturava e inventava termos sem parcimônia. Porfaplease, eu adorava. Certa feita, ouvi todo o seu amor expresso na frase “I love you, daddy” e retruquei com um sonoro “I love you too” por ela respondido com um “I love you three, four, five”.

Um querido amigo, em viagem à Itália e quase já sem dinheiro, sentou-se em um restaurante e olhando o cardápio e desconhecendo todos os termos, pediu o item mais barato do menu: corfetta e colttello. Vendo que o rango não chegava reclamou com o garçom e descobriu que ele não tinha pedido comida, mas tinha pago dois euros pelos talheres para poder comer. Talvez, se conhece a origem do termo fork (garfo), em inglês e cotelo, faca de corte forte e profundo de origem italiana, não teria gasto seus últimos dez reais despropositadamente.