Coluna Alternativa A: Um país de muitas palavras

Por Glauco Keller

Os termos estrangeiros sempre fizeram e farão parte de qualquer idioma. Desde os vocábulos do latim incorporados ao grego por ocasião da tomada da Grécia pelo Império Romano até as recentes influências do espanhol na língua inglesa do sul dos EUA. As razões são as mais variadas. Proximidade geográfica, ausência de termo na língua nativa ou influência cultural.

A língua portuguesa se desenvolveu a partir do latim vulgar, língua falada pelo povo e não pela elite romana, transformando-se no galego-português, língua comum na Península Ibérica, até chegar ao português tal qual conhecemos hoje. Ou, pelo menos, parecido como o que conhecemos hoje.

Ironicamente, o português falado em Portugal por ocasião das grandes navegações, ou seja, há mais ou menos 500 anos, era mais parecido com o português  falado hoje no Brasil do que a língua falada hoje em Portugal. Assim, quando novelas, filmes ou minisséries de época retratam a chegada dos portugueses ao Brasil com o sotaque lusitano tal qual vemos nos dias atuais, certamente, erram no quesito língua.

As influências que a língua portuguesa “brasileira” sofreu desde 1500 foram muitas. A mais importante foi oriunda dos povoados indígenas ou povos originários, em especial o Tupi. Não é preciso ir muito longe para identificar, em nosso dia a dia, termos como mandioca, jabuticaba, pipoca ou paçoca. Mas, não é só na culinária que as palavras indígenas são bastante comuns: o homem branco, por exemplo, era chamado de carioca, jacaré é o bicho que olha de soslaio, e catapora, o fogo que salta e arde. Aqui mesmo na região de São Carlos são comuns as cidades que conseguiram fugir da influência católica dos Sãos ou Santos (São Paulo, São Carlos, São José dos Campos etc) e adotam até hoje nomes de origem indígena. Araraquara, por exemplo, vem do indígena Aracoara, lugar onde mora a luz, indicando que o carinhoso nome de “morada do sol” para a cidade não existe em vão. Outro exemplo é a cidade de Pirassununga ou dos “peixes barulhentos” ou mesmo Itirapina, morro pelado.

A elite brasileira contribuiu com o vocabulário importado da França, lugar onde as universidades e academias de belas artes frequentemente recebiam os filhos dos mais abastados de nosso país. Estudar na Europa fez com que jovens não só trouxessem para o país conhecimentos relativos à medicina, às ciências, linguagens e artes, mas que também, sem saber, contribuíssem com o incremento vocabular de nosso idioma. Vitrô (vitreaux), sutiã (soutien), talher (coutellier) ou lingerie são termos que os franceses nos deram.

Mais tarde, com a chegada dos imigrantes italianos, mais uma vez nossa língua se viu inundada por termos oriundos da vecchia botta. Pizza, aquarela, contralto, soneto, trombone e bagatela são alguns exemplos. Sem contar a terra roxa que nunca existiu por aqui, mas que aos olhos dos italianos era rossa, ou seja, vermelha.

Ah! Mas e qual a língua que influencia a língua portuguesa “brasileira” agora? Você já deve imaginar, mas dela falo na coluna da semana que vem. Arriverderci!