Coluna Alternativa A: Uns vão…

Por Glauco Keller

No planejamento eu deveria falar dos estrangeirismos na língua portuguesa. Seria a segunda crônica sobre o assunto. Hoje, a língua inglesa me esperava. Mas a vida é imprevisível em seus aspectos positivos e negativos: acabo de chegar de um enterro.

Aos oitenta e sete anos, o velho coração de meu padrinho Laerte Gorni, não resistiu. Bateu pela última vez em sua cama cercado de familiares. De uma generosidade fora do comum, deixou ensinamentos e amigos por onde passou. Foi e largou com a gente a  saudade.

No velório, reencontrei amigos, familiares que não via há muito tempo e passei parte do meu tempo ao lado do caixão consolando minha madrinha que, com a memória e a percepção da realidade falhas, sofria menos do que nós.

Sempre acreditei, ao menos racionalmente, que as tristezas e infelicidades ensinam mais do que os momentos felizes e que devemos, ao menos tentar, enxergar os aspectos positivos de cada momento. “Eu quero mais é tentação no caminho, pois o homem é o exercício que faz”, falava o meu psicólogo, Raul Seixas.

Abracei meu irmão por longo tempo, algo que há muito não fazia e me refestelei ao conversar com o meu primo Helio Ferraz Porciúncula. Helio foi professor do curso de Odontologia da Unesp e, mesmo aposentado, não perdeu o tom professoral que a tantos inspirou. Tem uma visão singular da vida e, aos setenta e sete anos, partilha conhecimento e histórias.

Falamos sobre música, arte, educação, descobrimos que nos assemelhamos na forma de enxergar os passos da caminhada e na velocidade que devemos dar a ela também. Curiosamente, descobri que o Helio é capaz de identificar um dente de olhos fechados apenas com o tato e que ele já passou por cirurgias no joelho, ombro e coração, além de gostar de música e de boa prosa. Lembrei que preciso encontrá-lo mais vezes.

Misturando despedidas e reencontros, fui embora levando comigo uma alma mais leve e o pensamento no Fernando Pessoa: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Foi-se uma que, se eu não estiver errado, será recebido nos céus com honras de estadista. Foi-se o homemque  comprou para mim e meus irmãos cobertores quando em um inverno frio da década de 80, o lençol velho que minha mãe e meu pai podiam pagar não conseguia nos aquecer. Foi-se o homem que pagou o meu curso de inglês. Foi-se um exemplo de solidariedade  e generosidade.

Mas, para mim, o papo com o Helio deixou a sensação de que para tudo é possível encontrar um olhar terno e um aspecto positivo em relação ao porvir. Não sei se fui muito Cândido, como mostrou o Voltaire, mas  meus pensamentos pesados e meus árduos minutos no velório do tio Laerte, ficaram mais leves e agradáveis depois de conversar com o Helio. Uns vão, outros vêm.