Coluna Alternativa A: Vai, mas, se deixar, volta!

Série é sucesso mundial

Por Glauco Keller*

Você já deve ter visto alguma fotografia antiga e se chocado com as roupas, cortes de cabelo e cores que se exibem de modo a buscar a vergonha mais escondida que existe em você. Como eu tinha coragem de ter esse corte de cabelo? Calça boca de sino? Não é possível. Pois bem, mas se você analisar ciclicamente os hábitos humanos, verá que eles se repetem. A cultura, e aí incluem-se hábitos, culinária, vestimentas, política e manifestações artísticas, vai e volta como bem entende, seguindo regras sociais que se repetem, ora para o bem, ora para o mal.

O século XVIII, por exemplo, trouxe à tona um período artístico que ficou conhecido como neoclássico, pois nele os artistas, renegando os excessos e religiosidades do Barroco, resolveram olhar para a objetividade e pureza estética da arte clássica grega (século IV a.C), chamado de período clássico, e produzir uma releitura de algo que nunca viveram. Nomenclaturas à parte, como não conseguimos ter acesso aos sons das músicas ouvidas pelos gregos, afinal não havia gravadores ou podcasts na Grécia Antiga, passamos a chamar a música do período Neoclássico de música clássica. Num equívoco de terminologias, a partir de então, qualquer música que venha da Europa e tenha violinos ou pianos, mas não tenha vocalização, passamos a chamar de música clássica, sem saber se nos referimos à classe da música ou ao período em que ela foi produzida.

Na moda, a mesma coisa acontece. Hoje em dia, por conta do cinema e das séries terem passeado pelos anos 80 e 90, vemos tênis AllStar, calças com cinturas mais altas e os velhos camisões xadrez que eu adoro voltarem à moda. Viva Stranger Things, pois a turma da Eleven trouxe com ela canções populares da chamada década perdida ou da charrete que perdeu o condutor, como disse Raul Seixas, de volta matando a saudade de muitos e chegando às paradas mundiais.

O problema é que os pontos negativos também dão as caras. Se os hábitos são cíclicos, os pensamentos, sejam bons ou ruins, também e o novo milênio trouxe de volta alguns bem retrógrados e excludentes que, ingenuamente, achávamos que estavam devidamente enterrados. A nova direita política, repaginada pelas tatuagens e músculos alfa de seus seguidores acéfalos, carrega os mesmos preconceitos e formas de pensar xenófobas, misóginas e briga por uma pauta de costumes medievalesca que prega um modelo de adoração a um Deus que só eles enxergam. Como era de se esperar, fazem uso da força, das armas, renegam a ciência e o conhecimento e inventam mentiras para tentar convencer seus asseclas. Curiosa e propositalmente, não discutem miséria, distribuição de riquezas, inflação, educação e saúde pública. Não sabem ouvir. Não querem aprender. Querem falar, gritar e agredir. São um produto escatológico do pior pensamento humano, sobreviventes de um fascismo boçal e ultrapassado que só existe devido à acefalia de seus seguidores.

Mas se a sociedade tem práticas e pensamentos cíclicos, será que é possível prever seus próximos passos? Seguindo a lógica, embora não saibamos exatamente quando, é possível crer que haverá uma natural renegação do modelo atual nos próximos tempos. Assim tem sido nas artes, na política, nas práticas e nos costumes. O ser humano tem se reinventado em cima daquilo que já foi no passado. Por isso, o novo pensamento precisa urgentemente lutar por aquilo que gerações anteriores já haviam conquistado: leis trabalhistas, direitos à saúde e educação universal, à cidadania, entre tantos outros pontos. Caso não o façam, os próximos passos dos conservadores marombados será discutir o direito a voto das mulheres, implantar ensino de religiões neopentecostais nas escolas, proibir manifestações políticas contrárias ao seu pensamento, tentar reduzir maioridade penal e implantar a pena de morte. Tudo isso, enquanto mais de trinta milhões de brasileiros passam fome. Os tempos são outros, mas que são os mesmos são.

  • O autor é professor e jornalista.