Coluna Alternativa A: Variações do mesmo pensamento

●  Por Glauco Keller Villas Boas

A gravação da reunião ministerial do dia 22 de abril – que deveria tratar do combate ao COVID-19 – chocou qualquer pessoa de bom senso por várias razões: ameaças às instituições democráticas, sugestões de práticas escusas para burlar legislação e normas ambientas, intenção clara de privatização do maior banco estatal do país, discussões sobre eventuais ingerências sobre a Polícia Federal e, embora a Advocacia Geral da União tenha concordado com a divulgação do vídeo, o mal-estar gerado por ele é evidente.

 

De maneira unilateral como tem feito ou tem tentado fazer desde que assumiu o governo em 2019, Jair Bolsonaro informou que não irá mais fazer reuniões ministeriais e, quando as fizer, não permitirá que essas sejam gravadas (as gravações são documentos para fins de preservação da história política e aconteceram em todos os governos desde a redemocratização do país). É dessa forma que o presidente acaba com os problemas e equívocos de seu governo. Não faz mais reunião e, quando as faz, não as grava.

 

Contudo, gostaria aqui de apontar e discutir o vocabulário chulo do senhor presidente e de alguns de seus ministros e, para isso, peço perdão aos meus leitores habituais pelo meu conservadorismo linguístico que não reflete obrigatoriamente como enxergo a língua portuguesa. Não sou afeito a preconceitos linguísticos, mas tomo a liberdade de criar aqui uma licença literária para falar aos conversadores e apoiadores do governo Bolsonaro que, infelizmente, creio, não chegarão até esta linha do texto. Mas, vamos lá.

 

Os palavrões fazem parte do vocabulário de qualquer língua e não devem, em hipótese alguma, ser demonizados. Dito isso, é importante lembrar que as línguas, de maneira geral, apresentam um fator que chamamos de variantes linguísticas que são modos ou maneiras de usar a idioma e que podem ser alterados das mais diversas formas: variante regional (a diferença de fala entre um gaúcho e um paulista), variante profissional (diferenças de vocabulário entre um advogado e um contador), variante histórica (mudança de práticas de fala e escrita de um período para o outro dentro do mesmo idioma) entre outras.

 

Destacando que não há um jeito certo ou errado de falar, apenas formas distintas e mais ou menos adequadas de se expressar em situações, momentos e locais, a variante que nos interessa aqui é aquela que a língua chama de situacional e tem a ver com o uso correto do idioma (código de comunicação entre dois ou mais interlocutores) dentro de determinada situação, seja ela mais ou menos formal ou coloquial, por exemplo.

 

Não há lei que proíba o uso de palavrões em reuniões ministeriais, contudo, há, a meu ver, pelo menos dois tipos de uso das chamadas palavras de baixo calão. Essas, por vezes, são usadas como intensificadores ou qualificadores (advérbios ou adjetivos) de um substantivo ou verbo: “O Messi joga pra caralho!” “Nossa, o Michael Jordan era foda”. Não há, nesse caso, qualquer inadequação do uso, contanto que o contexto social e linguístico permita sua utilização.

 

O segundo uso dos palavrões, no entanto, deve ser evitado: serve para ofender, xingar, humilhar e ameaçar. Expressa ódio e agride. Deve, se possível, ser evitado sempre em qualquer diálogo respeitoso e é justamente esse que o senhor presidente Jair Bolsonaro usou à exacerbação para se referir àqueles que pensam diferentemente dele. Com ódio em seus olhos claros e na sua fala trêmula, o Jair, aparentemente ainda em campanha, fala aos seus como se estivesse disputando as finais do campeonato amador de Cabo Frio (com todo o meu respeito aos atletas amadores da cidade carioca), sem pudores necessários a uma reunião de Estado em que os homens ali presentes, além de constituírem-se história viva do país, estão instituídos de cargos da Nação.

 

A incapacidade de ouvir do senhor presidente é tão visível quanto sua capacidade de se fazer convencer pelo grito e pelos xingamentos. Seu raciocínio limítrofe não permite que ele se expresse de forma distinta daquela que deve ter usado com seus soldados antes de deixar o Exército. Bolsonaro é aquilo que vimos na fatídica reunião ministerial e sua forma de pensar e de se expressar através de ofensas também.

 

Por isso, pergunto àqueles que apoiam o governo se eles usariam e apoiariam o vocabulário ofensivo usado pelo senhor presidente da República e alguns de seus ministros nas seguintes situações:

 

  • Em uma reunião de diretor, coordenador e professores na escola de seu filho?
  • Em uma sala de aula com professores ofendendo alunos com palavrões e xingamentos gerais porque esses não entregaram as tarefas?
  • Em um escritório de contabilidade ao ver um chefe tratando seus funcionários com bolsonarês?
  • Ao verem um pai falando com o filho que deixou o cachorro com as patas sujas entrar na sala de estar?
  • Ao ver alguém se dirigir ao motoboy ao receber a comida encomendada no restaurante com 15 minutos de atraso?

 

Pois bem. Se você discordou do ódio, dos xingamentos e das ofensas nos casos acima, não pode concordar com o presidente. Se concordar, é mau-caratismo. Ou não, pois, afinal,  para o Bolsonarista, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” e o senhor Jair está aí pra provar que variação linguística é coisa do passado, afinal “Vamos mudar isso aí.” No comércio, na escola, na empresa ou na reunião ministerial o que está em moda é xingar e ofender. Xingamento e ódio agora são míticos no Brasil.

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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Imagem de Dênia Costa por Pixabay