Coluna Alternativa A: Voltar ou não voltar? Eis a questão!

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Não existe instituição mais criticada e questionada do que a escola brasileira. Na onda da “saudade daquilo que a gente nunca viveu”, os nostálgicos de uma época que o Brasil nunca teve e de que a escola nunca foi têm insistido em palpitar sobre como a escola deveria se portar para voltar a ser o que eles gostariam que ela fosse.

Embasados em vídeos e comentários de redes sociais, esses “especialistas”, os quais em sua maioria nunca realizaram um curso de licenciatura, desconhecem o significado da palavra pedagogia[1] e elegeram o educador Paulo Freire como vilão, sem nunca ter lido uma linha do que ele escreveu. Tais “especialistas” opinam, apontam caminhos e resolvem as mazelas históricas da educação brasileira num piscar de olhos.

Para muitos desses, na época da ditadura militar havia respeito. Os alunos entravam na sala de aula em fila, não corriam nos intervalos, eram asseados e sabiam de cor o hino nacional. Não entendo a razão de obrigar crianças de seis anos a andar em fila. Como pai, quero que meu filho brinque, corra e aprenda ludicamente na escola; quero o uniforme sujo de terra e manchado de tinta; e quanto ao hino, poucas dessas crianças que foram educadas durante a ditadura militar sabem dizer o significado de “lábaro” ou de “penhor”. O hino era mero adereço para impressionar autoridades mentecaptas e conservadoras. Não era e nunca foi interpretado. E sobre a sociedade formada por essa geração educada pelo viés da ditadura, os resultados aí estão para mostrar a catástrofe social e a desigualdade sem precedentes na distribuição de riquezas e no acesso aos equipamentos públicos. E quanto ao nostálgico respeito? Troquemos o termo por subserviência e teremos a resposta daquilo que a ditadura queria: crianças e jovens que aceitavam tudo sem criticar nada.

É fato que a pandemia da COVID-19 externou as dificuldades da escola e as desigualdades entre elas. Num primeiro momento as diferenças sociais se mostraram na incapacidade da maioria das escolas públicas brasileiras em conseguir levar aos seus alunos aulas remotas com uso da tecnologia. O problema, contudo, não estava na escola, afinal, a má distribuição de renda do país, não permitia que professores e alunos tivessem acesso a uma boa conexão de internet ou a um “device” adequado, para usar a terminologia do governador. Além disso, o acesso à inclusão digital, tão propagandeado por todos os partidos e candidatos mostrou-se, como outras promessas de campanha, ter acabado junto com o horário eleitoral gratuito.

De qualquer modo, a duras penas, com esforço hercúleo de professores, diretores e coordenadores, uso de aplicativos e acordos com empresas de telefonia, as aulas começaram a acontecer, não sem a crítica dos “especialistas” em coisa nenhuma. Vale destacar que dificuldades semelhantes se mostraram nas escolas particulares, as quais acolhem apenas 10% das crianças e jovens em todo o Brasil. Diferentemente do que se pensa, a grande maioria das escolas particulares do país é pequena (não fazem parte da grande indústria da educação) e atende ao público classe C, tendo como cliente o pai dono do varejão de frutas e legumes ou a mãe que costura máscaras e as entrega em domicílio. Demonizar essa escola particular é agredir o micro e pequeno empresário que, com muito custo, mantém a roda da economia girando.

Passados cinco meses de “suposto” isolamento social e com números altos de contágio e ocupação de UTIs, a discussão Shakespereana agora é “Voltar ou não voltar? Eis a questão!”. Mais uma vez, os especialistas em Hamlet, em gestão escolar e pedagogos de WhatsApp tomam a frente da discussão apresentando soluções milagrosas e propostas mirabolantes.

O fato é que o custo de uma volta antecipada é alto em dois grandes aspectos: a perda de vidas, e esse é irreparável, e o custo financeiro, pois o investimento estatal na higienização; distribuição de máscaras e álcool em gel; promoção de distanciamento dentro da sala de aula com apenas 30% dos alunos; logística de revezamento de estudantes; e tecnologia de transmissão das aulas para os 70% que ficarem em casa é altíssimo. Todos sabem disso. E isso tudo durante o tempo em que não houver vacina.

Pedagogicamente, contudo, a escola não é apenas local de transmissão de conhecimento acadêmico e cultural acumulados pela humanidade. É espaço de criação de relações sociais, de empoderamento de minorias e de acolhimento para todos os alunos, além de ser, para muitos, o local onde se serve a única refeição do dia. Ironicamente, essas informações, negadas historicamente, são, agora, usadas por aqueles que propõem a volta imediata às aulas.

Sou professor e posso afirmar que todos os meus colegas gostariam muito de estarem presentes nas escolas em todo o país. A diminuição do trabalho poderia ser uma das justificativas mais claras, pois trabalhamos muito mais nesse novo modelo, mas a presença física dos alunos e colegas, a percepção dos cheiros, olhares, toques e sorrisos é a razão primeira. O que não pode acontecer, entretanto, é deixar a discussão para aqueles que não têm o menor interesse pedagógico na escola. Pensam mercadologicamente. Querem que a escola volte para o pai ou a mãe voltarem ao trabalho e os lucros de poucos voltarem a crescer. Esses não se importam que o contágio em quinze dias subirá exponencialmente. Não ligam para o fato de que 4% a mais da população será infectada em duas semanas. Querem despejar o aluno na escola tentando, maleficamente, transferir a responsabilidade para os pais ou gestores escolares, livrando-se da tragédia de uma eventual morte dentro de uma escola.

A discussão é séria demais para ser deixada nas mãos daqueles que não a entendem, não a olham e não querem enxergar sua complexidade. A coragem que o momento exige é o de repensar as formas de ver a escola e de reconhecer a sua importância, afinal, esses que hoje querem obrigar a comunidade escolar a voltar às pressas, gerando aglomerações de crianças e jovens em salas de aula, muitas vezes sem circulação de ar, foram os apoiadores da PEC do teto de gastos que, maquiavelicamente, proibiu o aumento nos investimentos em educação no país por vinte longos anos.

Por isso, é hora de, enquanto sociedade, olharmos para o outro com empatia, sabendo reconhecer que um percentual mínimo de colégios em todo o país teria condições de voltar às aulas presenciais neste momento. É hora de reconhecer que a grande maioria dos alunos e professores do Brasil seria jogada aos leões, num sorteio sombrio de quem vive e quem morre. Ou voltamos todos ou não volta ninguém.

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

ALTERNATIVA A

ONDA ESPORTIVA

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[1] Pedagogia é a ciência cujo objeto de análise é a educação, seus métodos e princípios; reunião das teorias sobre educação e sobre o ensino.

 

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