Coluna Alternativa A: We WILL ROCK you

A festa de premiação da Academia estadunidense de cinema acontece anualmente em fevereiro ou março. Desde que foi criada, em 1927, a premiação conta com histórias polêmicas que vão desde o dia em que Marlon Brando, melhor ator por O poderoso Chefão, enviou a ativista indígena Maria Cruz para receber a estatueta com direito a textão sobre a representatividade indígena no cinema, passando pelo curioso fato de um homem completamente nu ter invadido o palco em 1974 até chegar ao vexatório equívoco na leitura do ganhador de melhor filme em 2017.

A própria estatueta dourada, prêmio maior do cinema mundial, embora não o mais importante, tem uma história interessante. Dizem que depois de forjada a estátua, a secretária-executiva da Academia, Margareth Herrick, comentou que esta parecia muito com seu tio Oscar. Pronto, a Academy Awards tinha um novo nome que durante anos caiu nas mãos dos ganhadores com a tradicional frase “And the winner is...”, mas com o passar do tempo, o nome Oscar ganhou tanta notoriedade que o envelope com o vencedor passou a trazer a prosaica frase  “And the Oscar goes to”.

Em 2022, havia bons filmes indicados. Confesso que não vi todos, mas fiquei surpreso com o fato de ver um Western nomeado ao Oscar de melhor filme. O último, se não me engano, tinha sido o brilhante Os imperdoáveis, de Clint Eastwood, em 1993. Não sei se O ataque dos cães, da Neozelandesa Jane Campion, merecia a estatueta ou não, mas quase até o final do filme eu não sabia exatamente do que ele se tratava. A surpresa final – sem spoilers – é descobrir o que você tinha assistido. Além disso, uma mulher ganhar o Oscar de best director é sempre bom. Um negro ganhar como melhor ator é maravilhoso, mas o entretenimento e a busca por curtidas e repercussão nas redes sociais parece não ter fim.

A genial série britânica Black Mirror, de Charlie Brooker, já antecipava que a technology is a trap e neste processo todo o trabalho artístico de produtores, diretores, atores, atrizes, sonoplastas, editores, fotógrafos e tantos outros profissionais que trabalham na Indústria da sétima arte em todo o mundo foi ofuscado pela rusga entre Chris Rock e Will Smith.

Houve quem dissesse que o tapa de Will Smith em Chris Rock foi a única coisa que valeu na cerimônia. Quem errou? Os dois, é óbvio. Existem gradações para a violência? É provável. A violência verbal é menos agressiva que a violência física? Em tese, sim. O fato é que, embora a suposta defesa da honra da esposa de Will Smith tenha nos remetido ao século XIX ou aos duelos medievais, isso não deveria importar mais do que os belos trabalhos cinematográficos que estavam buscando reconhecimento mundial naquela noite.

Infelizmente, como destacou o prêmio Nobel de literatura Mario Vargas Llosa, no livro A Civilização do Espetáculo*, nossa sociedade é “aculturada por uma globalização que a assemelha e opta pela comunicação imagética em detrimento da palavra”.  Nesse sentido, a arte, além de resultar-se em algo comercial, perde sua essência por sua efemeridade ao tornar-se descartável frente a uma discussão e vias de fato de dois atores. A palavra perde, assim, seu poder artístico e social. A imagem surreal do tapa ascende.

Para mim, Chris Rock nunca foi engraçado. O StandUp, gênero de comédia em que o humorista se levanta e supostamente improvisa o texto da apresentação, sem figurino ou cenário, nasceu sob o prisma de que fazer esse tipo de humor é coisa de quem não consegue memorizar o texto.  Esse gênero vive há muito tempo da sátira de comportamentos e características físicas das pessoas, muitas delas que estão inclusive na plateia prestigiando o espetáculo.Sempre defendi que a arte não pode ter amarras. Não considero, porém, arte a prática de satirizar comportamentos e características pessoais e mesmo que a considerasse, não precisaria apreciá-la. Não tenho como julgar o sentimento alheio e crucificar Will Smith e creio que ele mesmo deve estar arrependido e talvez se martirizando pelo tapa; nem tampouco consigo apreciar as bobagens ditas há tempos por Chris Rock. Só penso que o tapa poderia ser dado no discurso de ganhador do Oscar de melhor ator. Will poderia destacar a beleza da esposa, falar sobre a quebra de padrões estéticos e apontar a agressão vil e o preconceito de Chris Rock ao falar da aparência de sua esposa.

Mas, como destacam dois episódios maravilhosos de Black Mirror, “Urso Branco” e “Odiados pela Nação”, o que valem são os likes, os seguidores e o entretenimento. O resto é bobagem. We WILL ROCK you.

  • A Civilização do Espetáculo. Objetiva. Peru, 2012.
  • O autor é professor e jornalista.