Coluna Onda Esportiva: Futebol Brasileiro x Futebol Europeu

Discussão sobre futebol

Por Olavo Villas Boas

 

Depois de uma interessante discussão no programa Onda Esportiva (toda terça, às 17h na Rádio UFSCar 95,3 FM), que envolveu diversos questionamentos em relação a uma comparação entre o futebol brasileiro e o futebol europeu, surge uma dúvida: Qual a diferença essencial entre o futebol europeu e o brasileiro? O que faz nossas crianças e adolescentes torcerem para Real Madrid, Manchester City ou Paris Saint Germain?

Existem vários caminhos para se iniciar a reflexão. Um deles é a qualidade do jogo como um todo, mas espera aí, eles usurpam nossos melhores jogadores, com propostas milionárias etc. Sim, isso é correto!

Porém o futebol europeu e seus envolvidos não têm preguiça de pensar e evoluir, tanto tática quanto tecnicamente, eles ignoram o conservadorismo (muito presente no futebol brasileiro, que se julga inabalável por ser pentacampeão do mundo), e estão sempre em evolução. Você se lembra de uma revolução tática como o “Carrossel Holandês” da seleção holandesa de Cruyff ou o “Tiki Taka” do Barcelona de Guardiola, aqui no Brasil?

Um outro aspecto em que perdemos: Organização; nesse caso não só o Brasil, mas a América Latina como um todo.

Aberrações como a punição ao Santos contra o Estudiantes, em que o time escalou um jogador que de acordo com o Commit (local onde os times conferem se os jogadores têm penalidades a serem cumpridas) estava regular, jamais seria aplicada na Europa. A estrutura como um todo, a qualidade dos estádios (e não venha dizer que lá os estádios são gigantescos; o Craven Cottage, do Fulham, recebe jogos da Premier League semanalmente e possui capacidade de pouco mais de 6 mil pessoas) tornam o espetáculo menos vistoso.

E agora, o elemento mais importante: o envolvimento midiático, o mais pesado dos critérios.

O futebol não é apenas um jogo, e nunca será, existe um universo ao seu redor.

Além do jogo, existem premiações, existe comércio, existem games.

O game mais popular no mundo do futebol, o FIFA, produzido pela Eletronic Arts, sequer possui licença para reproduzir os times brasileiros em seu jogo.

O concorrente, Pro Evolution Soccer, mantém o futebol brasileiro como foco, mas caiu no ostracismo e respira com a ajuda de aparelhos. Dentro dos games, a desvalorização dos jogadores de clubes brasileiros é gritante.

A qualidade dos jogadores é infinitamente inferior, e um jogo entre brasileiros e europeus é quase que injusto, e isso influencia muito na cabeça de uma criança.

As premiações também dizem muito sobre a escolha desses jovens.

O futebol é um universo, e o torcedor quer se sentir parte disso, estar dentro do, digamos, “mainstream” do esporte.

Um fã assíduo de um cantor admira suas músicas e torce para que seu artista favorito esteja indicado ao Grammy, e geralmente os vencedores vêm dos grandes polos artísticos mundiais.

Um admirador de cinema, que tem seu ator ou atriz favoritos, quer ver seu ídolo sendo premiado, sendo falado, quer opinar sobre, participar, não apenas ver os filmes, e dificilmente esse prêmio será visto se o ator favorito do nosso hipotético cidadão não fizer parte de Hollywood e estrelar grandes produções.

Às vezes, uma fagulha de esperança se acende, como o dia em que Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar, mas acabou derrotada por Gwyneth Paltrow em sua interpretação em Shakespeare Apaixonado; ou quando o Santos de Neymar enfrentou o Barcelona de Guardiola e perdeu por 4×0 fora o baile, são situações semelhantes, todos torciam pra uma vitória improvável, mesmo sabendo que a derrota era óbvia.

O fã de futebol quer ver seus ídolos nas grandes premiações, quer ver seu jogador favorito disputando a bola de ouro, vencendo uma Champions League (afinal, o único torneio respeitado no mundo, tendo em vista a falta de público e audiência do último Mundial de Clubes), o torcedor quer fazer parte disso, e só tem essa possibilidade através de torcer e viver o futebol europeu, onde residem seus ídolos e referências.

Imagine Dudu do Palmeiras competindo pela Bola de Ouro ao lado de Messi e Cristiano Ronaldo; você consegue imaginar isso sem um tom irônico ou cômico?

Não! Já está intrínseco na mente do fã do futebol, a comparação se tornou chula, sem sentido, tudo graças à preguiça e à soberba das organizações do futebol brasileiro, e isso subsidia argumentos pra um jovem torcedor do Bayern de Munique, por exemplo.

A questão vai muito além da bola, e se não fizermos algo muito rapidamente, a tendência é termos um aumento nessa disparidade e o futebol brasileiro assumir de vez o segundo plano.

* O programa Onda Esportiva vai ao ar às terças, a partir das 17h, na Rádio UFSCar 95,3 FM.

Curta a página do programa no Face: www.facebook.com/ondaesportiva