Conheça Lilibete, a mulher que salvou o doutor…

A vida na Toscana

*Essa é uma obra de ficção

 

Estático no parapeito daquele shopping ele pensava em sua carreira e no tempo em que ficou no hospital. As pessoas que passavam por baixo da marquise pareciam formigas que poderiam ser esmagadas a qualquer momento. Ele olhava para as mães paradas em frente à loja de brinquedos com seus filhos e pensava que nunca tinha sido pai. Observava os homens admirados com uma vitrine de uma loja de roupas esportivas e lembrava que nunca gostou de fazer exercícios.

Ele se achava um ninguém, um nada sem vida, odiado por todos os homens porque simplesmente naquele instante queria tirar a sua própria vida. Não aguentava mais o mundo, a última cirurgia que havia realizado não tinha sido o sucesso esperado. Quando extraiu o rim do paciente pensou que seria a última, mas essa era 10ª vez que havia pensado isso. Retirou o órgão, suava em bicas, sua mão tremia. A enfermeira percebeu que um cirurgião tão preciso não estava bem.

Colocou a mão sobre seu ombro, a equipe ficou apreensiva. Ele se sentou e não quis mais continuar. Era um médico experiente e sabia que o momento não era para sandices, carecia de precisão e determinação. Pensou que os segundos que estavam se passando eram na verdade dias de intensa tortura espiritual e física que não terminariam. Foi retirado do centro cirúrgico porque teve um princípio de desmaio. Seu amigo e aprendiz foi chamado às pressas para concluir o trabalho que havia começado, o paciente se salvou, porém foi por pouco, um minuto a mais e uma tragédia teria se firmado.

Foi levado para a enfermaria porque não conseguia sequer parar em pé. Sua mão estava molhada, suas pernas trêmulas, seus olhos amarelos, os médicos (e seus companheiros de trabalho) não sabiam o que tinha acontecido com uma pessoa tão segura e que a tantos ensinou uma das artes mais apaixonantes que a medicina havia criado por meio da genialidade fantástica do ser humano que era o transplante.

Saiu de maca. No leito de estabilização passou a gritar, constatou-se uma crise nervosa. O neurologista seu colega de sauna das quintas-feiras resolveu administrar Diazepam na veia. O sossega leão funcionou e ele dormiu algumas horas. Os médicos comentavam no corredor sobre o que teria ocorrido, queriam entender o que havia se passado. Até sobre sua aparência desleixada dos últimos tempos se falou.

O psiquiatra chegou a dizer que via um homem definhar aos poucos e que isso era sinal de uma grande depressão. Ele dizia que para se deprimir era preciso apenas de um “start”, uma desilusão, o que para muitos poderia parecer nada, para ele seria o tudo. A depressão é doença sorrateira que aliena o homem dos problemas atuais e o coloca mergulhado dentro de uma vastidão de sombras que praticamente impede que a verdadeira luz seja encontrada.

O nefrologista de plantão lembrou que uma vez ele havia comentado que não se casar havia sido uma opção desde a faculdade porque não queria ver se formar em sua vida aquilo que ocorreu na sua casa. Uma família de malucos, gritões e competitivos. Ele contou certa vez para o colega que em sua casa tudo era competição e que por muitas ocasiões existiu a disputa por atenção e que não se sabia quem mais poderia chamar tanto atenção das pessoas. A mãe era uma deprimida, o pai um alienado e o irmão simplesmente não ligava para nada, mas todos se digladiavam entre si na busca de dominar o pedaço e buscar a sua atenção. Tudo estava em suas costas. O médico contou que ele tinha optado por não inaugurar uma nova fábrica de loucos.

Seus hábitos eram discretos. Sauna, casa, mercado, futebol na TV. Os parentes estavam em outra cidade. Gostava de plantas, tinha um imenso jardim em sua casa. Morava bem, numa casa ampla cheia de tulipas em canteiros. Toda manhã queria ouvir o gorjear dos pássaros, tinha um local que ele mesmo construiu onde depositava frutas todas as manhãs para que os amigos emplumados de diversas espécies fossem fazer o dejejum. Amava os carros, tinha um importado, um Range Roover, carro robusto de carapaça de tanque de guerra. Acreditava na robustez.

Uma de suas poucas vaidades, pois tinha um bom salário, era sair com seu carro e esticar até  Campos do Jordão. Adorava a subida da Floriano Rodrigues Pinheiro que desemboca na cidade. Sempre se lembrava da entrada, do painel que recebe os visitantes: Campos do Jordão, Jardim do Brasil. Às vezes deixava o expediente no Sírio Libanês e ia para Campos apenas para tomar um chopp no Baden-Baden comer uma porção de linguiça na chapa e dormir no Solar da Montanha, seu hotel preferido no Capivari. Amava o bolo de chocolate que é oferecido no café da manhã.

Sua paixão pela medicina tinha nascido de ver seus cães morrerem de parva virose. Queria entender e por isso decidiu cuidar de pessoas, antes queria ser veterinário. Não tinha cães em casa, mas por falta de tempo do que de vontade. Porém, contribuía mensalmente com uma ONG que cuidava de animais abandonados, os visitava com frequência e ajuda nos trabalhos sempre que podia. O resumo do bom cidadão ou não?

Mas era homem atormentado por uma doença que consome milhares de pessoas: a solidão. Sua solidão o estava carcomendo, porque ele não entendia como poderia salvar vidas e permanecer sozinho. Não achava inteligente pagar por sexo com uma profissional, porém não tinha vontade de ir para a noite conhecer alguém. Tinha medo das pessoas que salvava, os pacientes que ficavam sadios depois de passar por suas mãos se tornavam verdadeiros inimigos, não os queria por perto. Todos os mimos que ganhava sempre os dava para alguém. Era do contra, mesmo sendo a favor.

Mas seu peito apertava. Queria fazer comida e ter alguém com quem conversar, mas isso não era permitido ao seu manual de conduta perfeita. Ter alguém, falar, conversar, somente o mais breve possível e aquilo que o trabalho lhe permitia falar. Na sauna ouvia os colegas contarem os problemas de sua casa, as traições, as esposas mal amadas e sempre terminava com uma velha frase: “Nem imagino como isso possa acontecer!”

Quando ia embora primeiro que os outros já sabia que se tornaria o assunto do próximo comentário simplesmente por ser quem era. Esquisitão, água de salsicha, maluquete, dr. Abobrinha eram os apelidos que os colegas lhe davam. Não era adepto das caronas, se encontrasse algum conhecido pelo caminho simplesmente passava reto. Nunca se esquecia de quando aos 10 anos ficou para trás tomando chuva porque um rapaz que estudava em sua classe lhe negou um carona. O trauma, de algo pequeno, ficou e fez marcas profundas, pois ajudou a construir essa personalidade maluca e excêntrica.

Despertou

Acordado do sedativo e com um gosto de cabo de guarda-chuva na boca, ele não sabia onde estava. Apenas uma lembrança fosca de que tinha saído da cirurgia sem cumprir o seu trabalho. Aquilo tinha ficado em sua esfacelada mente, mas perturbava pouco. A enfermeira chamou seu amigo neurologista, mais dois testes de aptidão e o médico resolveu deixar o colega ir embora para casa, porém não o liberou para dirigir, um táxi o transportou.

Chegou em casa e tomou aquele banho demorado. Sentou e viu dois seriados que gostava. Comeu um pedaço de queijo, mas não sabia bem o que iria fazer. Saiu na janela e deu de cara com o shopping que ficava praticamente em frente de seu condomínio, casas de bacana são assim, como dizem as propagandas imobiliárias: bem localizados.

Colocou uma roupa de passeio e foi até o shopping. Entrou, passou pela marquise que todos os dias “enfrentava” para ir tomar um café e resolveu ficar. Queria olhar, sentir e observar, achou que depois de não se misturar por anos com a humanidade estava no momento de colocar um fim a sua história, porém tinha o dilema de querer o fim, mas ter que fazê-lo de uma maneira impactante, não queria que as pessoas se chocassem. Poderia se envenenar, mas era médico, sabia que a morte seria dolorosa e lenta, tinha medo de sofrer, achava que se pulasse da marquise morreria instantaneamente. Era o fim, o paraíso, sem maiores preocupações.

Todavia, o fim o incomodava porque achava que não deveria ir embora do mundo sem que as pessoas soubessem que levava algo de positivo em sua alma e que a humanidade havia conseguido incutir alguma espécie de valor em sua existência. A coragem é uma arma de poucos, até para colocar fim em sua própria vida é preciso tê-la em abundância.

Mas o seu drama apenas tinha aumentado. As câmeras de segurança do shopping já tinham notado que ele estava numa posição estratégica e que poderia cometer uma besteira há qualquer momento. As equipes se mobilizaram de repente embaixo tudo ficou limpo, quem via vitrines passou a olhar para cima e ver aquele homem com aparência discreta e que tentava se matar. Ele apenas acenava com as mãos para os dizeres das pessoas e dos bombeiros que tentavam negociar uma “saída amigável” para o momento.

Dizia que era o fim. O começo de uma nova vida, nunca tinha falado naquele tom de voz. A mídia foi avisada, as pessoas fotografavam e colocam no Facebook, no Twitter e todos podiam acompanhar em tempo real o drama que se passava na capital paulista, #malucodoshopping foi para os TTs Brasil do microblog. O homem estava sufocado, seu rosto aparecia ao vivo nos principais jornais das emissoras, o apresentador do jornal fazia seus comentários e o médico pensava no que ele estaria falando. No hospital o postinho de enfermagem estava vendo a tragédia ao vivo. Um grupo de enfermeiras chamou os médicos e uma multidão se formou apenas para observar e torcer para que o doutor não pulasse.  O psiquiatra só pensava: “Sabia que iria dar nisso e não deveria ter deixado esse cara ir embora!”

Os bombeiros cercaram o local e não deixaram que ninguém se aproximasse. Tentar chegar perto seria uma alternativa, mas e se ele pulasse? O negociador foi até o ponto onde o médico permitiu. Num gesto abrupto, ele mandou parar, era um sinal. O médico estava tenso, suando em bicas, porque estavam no momento mais tenso de sua vida, porque ele não estava decidindo por uma vida que estava em suas mãos, mas sim se pularia nas mãos da morte para um lugar desconhecido.  O fim poderia ser o começo mais desafiador de todos.

Enquanto ouvia os argumentos do bombeiro, duas horas de conversa, a torcida por sua desistência cresceu, até que numa bobeada acabou seguro por outro especialista que estava na espreita. Bateu-se, gritou, disse que iria pular, xingou. No final, apenas o choro desconsolado.

Tratamentos de praxe. Hospital, sedativos, reabilitação. Força para viver de novo. Análise por quase dois anos ininterruptos. Era tímido ainda, não conversava com todo mundo justamente porque não tinha todo mundo para conversar, depois do episódio do shopping as pessoas ficaram com um pouco de medo de se aproximar, agora ele queria interagir, mas seus companheiros mantinham certa distância. Nem transplantes fazia mais, apenas clinicava para se manter.

Nunca tinha viajado com frequência para o exterior com exceção dos simpósios da categoria. Mas permitiu-se. Foi a Europa, andou sob o sol da Toscana, conheceu as belezas da velha bota e sentiu um raio de sol diferente. Achava que poderia mudar.

Num café italiano conheceu Lilibete, francesa que era garçonete há 12 anos no local. Amor. Simples e sublime, juntaram os trapos, casaram na igrejinha da vila. Mudou-se para a Itália, nunca mais foi médico. Hoje planta tulipas e as vende na feira. É feliz, têm quatro filhos, nenhum deles quer ser médico. Doou sua casa em São Paulo para a caridade e cria 14 cachorros e virou um falastrão. Comprou uma casa em Campos do Jordão e visita o país frequentemente.

Por Renato Chimirri

 

Imagem de Nicola Pezzatini por Pixabay