Construí uma casa em cima de minha própria cova

Eu sempre quis uma casa no campo. Longe da cidade, do barulho, da pressa. Encontrei um terreno que me pareceu perfeito: plano, cercado de árvores antigas, com um silêncio que só era cortado pelo vento e pelo canto dos pássaros. Um lugar tranquilo para viver com minha esposa e meus dois filhos. Construímos nossa casa ali, tijolo por tijolo, e no início, tudo parecia normal.

Mas logo vieram os sonhos.

No começo, eram apenas vultos. Sombras se arrastando pelo quarto, visíveis apenas pelo canto do olho. Às vezes, acordávamos com uma sensação estranha, como se alguém estivesse parado ao lado da cama, nos observando. Minha esposa dizia que era cansaço. As crianças tinham pesadelos quase todas as noites. Meu filho mais novo acordava chorando, dizendo que um homem sem rosto ficava sussurrando ao pé da sua cama.

Depois, vieram os sons.

No meio da noite, a madeira do piso rangia como se pés descalços caminhassem pelo corredor. O vento uivava diferente, sussurrando palavras que não entendíamos. A água das torneiras abria sozinha, e quando tentávamos desligá-la, parecia resistir por alguns segundos antes de ceder.

Mas o pior foi quando o chão começou a ceder.

No quintal, perto da árvore onde as crianças brincavam, uma rachadura fina apareceu. No dia seguinte, estava maior. Como se algo lá embaixo estivesse puxando a terra. Um cheiro estranho começou a subir dali, um cheiro de umidade, de coisa antiga.

Então, decidi cavar.

O solo era fofo, como se alguém já tivesse mexido nele antes. Cavei até que a pá encontrou algo duro. Continuei escavando até que a forma começou a aparecer. Primeiro, um pedaço de madeira velha. Depois, a borda de um caixão.

Meus dedos tremeram quando tirei a terra de cima do nome gravado. Não era um nome desconhecido. Era o meu.

Corri para dentro da casa, o coração martelando no peito. Minha esposa olhou para mim, esperando explicações, mas tudo que eu conseguia dizer era: “Precisamos sair daqui. Agora.”

Em menos de uma semana, pegamos nossas coisas e partimos. Deixamos para trás a casa que construímos, o terreno onde nossos filhos brincaram, as paredes que seguraram nossos sonhos. Mas nunca deixamos para trás o que vivemos ali.

Mesmo longe, ainda escuto o som da madeira rangendo. Ainda sinto que alguém me observa no escuro. E, às vezes, nos meus sonhos, vejo a cova aberta, esperando pacientemente pela minha volta.

Este é um conto de ficção, portanto, nada é verdadeiro.