CoronaVac é a primeira vacina a comprovar sua efetividade em população de uma cidade

Teste foi em Serrana

Estudos clínicos de fase 1, 2 e 3 e pesquisas de efetividade de vacinas têm finalidades diferentes. Os ensaios clínicos clássicos se dedicam a descobrir dados de segurança e eficácia dos produtos. Isso é feito por meio de testes, divididos em fases, em alguns milhares de indivíduos. O conceito avalia se um imunizante consegue ou não proteger o organismo de uma doença, fazendo a comparação entre casos leves, moderados, graves e óbitos de voluntários que contraíram a doença – quem recebeu a vacina e quem recebeu placebo. Neste caso, o ambiente dos estudos é controlado. 

Mas como medir o impacto da vacina em um ambiente não monitorado? A CoronaVac, vacina do Butantan contra a Covid-19 feita em parceria com a biofarmacêutica chinesa Sinovac, foi a primeira vacina a ser testada em uma população inteira, ou seja, comprovou sua efetividade também no mundo real, além dos ensaios clínicos de eficácia. 

No estudo realizado pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, denominado Projeto S, a CoronaVac se provou também eficiente. Ao atingir-se uma cobertura vacinal de aproximadamente 75% da população adulta do município, foi possível controlar a epidemia no local. Além de evitar a grande maioria das internações e óbitos por Covid-19, a vacinação conseguiu diminuir a transmissão do vírus – beneficiando, inclusive, os habitantes que não se aplicavam aos critérios de inclusão da pesquisa e não haviam se imunizado.

Foram quase 28 mil adultos vacinados, sendo que aproximadamente 10 mil deles transitam diariamente entre Serrana e Ribeirão Preto – cidade da região onde há alta de casos de Covid-19. A aplicação da CoronaVac fez os casos sintomáticos de Covid-19 caírem 80%, as internações, 86%, e as mortes, 95% em Serrana. As próximas etapas do projeto ainda pretendem descobrir mais sobre a imunização alcançada e o tempo de duração de anticorpos.

Todas as vacinas aprovadas para aplicação no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passaram por rigorosos testes para comprovar sua eficácia e seu perfil de segurança. Porém, os ensaios clínicos de fase 1, 2 e 3 realizados até o momento focaram seus testes em descobrir se o imunizante pode impedir o agravamento da doença, mas não sua transmissão.  

Em coletiva de imprensa realizada no Palácio dos Bandeirantes nesta quarta (30), o infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Renato Kfouri explicou que o sucesso de um programa de vacinação depende da cobertura vacinal com as duas doses e da velocidade com que se consegue imunizar a população. “Serrana é um exemplo clássico. Mostra que quanto mais rápido vacinarmos a população, mais rápido poderemos conter a transmissão da doença”, diz o médico.

Sobre os estudos de efetividade, ele também destacou a recente pesquisa do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC/USP), anunciada na mesma ocasião. A vacinação com a CoronaVac fez os casos de Covid-19 entre os 22 mil funcionários da instituição caírem quase 80% após a segunda dose, mesmo em uma população altamente exposta ao vírus, como é o caso dos profissionais de saúde. 

“Esses dados têm se acumulado. No Uruguai e no Chile [países em que a CoronaVac tem sido aplicada] tivemos uma redução espetacular de internações e óbitos, mas também na transmissão dos casos leves. São os dados que a gente espera obter aqui no Brasil”, completa o diretor da SBIm.