Crime sem solução no canavial entre São Carlos e Ibaté

O delegado Antunes já vira de tudo em sua carreira na Polícia Civil de São Carlos. Mas nada se comparava ao que o aguardava no canavial entre São Carlos e Ibaté.

Naquela manhã de novembro, o sol desenhava sombras esguias sobre as folhas cortantes da cana. Os peritos apontavam para o corpo: um homem, cujos documentos o identificavam como Jorge Valioso um corretor de imóveis local. Mas o que assustava não era o cadáver em si, e sim sua condição.

Ele estava petrificado.

Não morto há dias, não enrijecido pelo rigor mortis. Mas sim transformado em uma estátua perfeita de si mesmo, como se o tempo tivesse parado em sua carne e ossos, transformando-o em um monumento grotesco de argila e poeira.

Antunes esfregou os olhos. Olhou para os peritos. Eles pareciam tão confusos quanto ele.

— Isso é algum tipo de pegadinha? — perguntou.

O legista balançou a cabeça.

— Não há vestígios de violência. Nenhum ferimento aparente. É como se… como se ele tivesse sido transformado nisso num único instante.

O delegado sentiu um arrepio subir pela espinha. Ele já ouvira relatos de crimes estranhos, mas nada chegava perto disso.

A investigação seguiu por caminhos tortuosos. Valioso era um homem comum. Nada que justificasse aquele fim surreal. Mas então, testemunhas começaram a surgir. Um trabalhador rural alegou ter visto uma luz azulada pairando sobre o canavial na noite anterior. Um velho morador da região sussurrou que há décadas ninguém passava por aquela parte da plantação sem sentir um arrepio ou ouvir vozes sussurrando em idiomas esquecidos.

E então veio a prisão.

Havia um suspeito: um homem de pele acinzentada e olhos profundos, chamado Otávio Mender, morador de rua conhecido na cidade. A polícia encontrou em seu casebre rabiscos desenhados em carvão, representando figuras humanas em posições tortuosas, suas formas se dissolvendo em sombras.

Ao ser preso, Mender apenas sorriu.

— Vocês acham que fui eu? — sussurrou. — Acham mesmo que foi um de nós?

Antunes sentiu algo se remexer dentro de si.

A análise da perícia não encontrou nada ligando Mender ao crime. Nenhuma prova, nenhum motivo. Dias depois, o delegado foi obrigado a soltá-lo.

O caso foi arquivado. O crime, insolúvel.

E o canavial permaneceu lá, esperando.

Antunes nunca mais passou por aquela estrada à noite.

Este é um conto, obra de ficção.