Crônica: Saúde?

Preocupações com a saúde?

 “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças.”

(Organização mundial da saúde – OMS)

No entanto, é muito difícil alguém que cumpra tais requisitos. Aliás, a saúde, propriamente dita é uma raridade. Atualmente, parece ser necessário ter qualificação para obtê-la. Quando estamos bem na parte física, aparece problemas sociais; quando não há problemas sociais, surgem problemas da parte física; e quando guardamos muitas coisas em nossa cachola, aparecem os problemas mentais, por falta de higiene mental.

A obra icônica “O Grito” (1893) do norueguês Edvard Munch (1863 – 1944) mostra o interior de cada um, as suas peculiares maneiras, mas em essência iguais, elencando o grito como a mais fulgurante expressão idiomática que um ser humano possa ter. A paisagem demonstra um crepúsculo incerto, ondulante e quente, na incerteza do que está por vir. Tudo parece incerto e sem definição. Imerso nessa incerteza, busca-se incessantemente algo tão incerto, muitas vezes gananciosamente, para no fim acabar minando a saúde, bem precioso concedido por um determinado tempo até que então a morte chega, e a definição de saúde perde sua razão existencial.

Guarda-se um verdadeiro, ou melhor, vários gritos no âmago querendo ser libertos para que todos ouçam, mas muitas vezes, estoicamente, a maioria nem perceberá, continuando seu caminho egoísta, como os seres sem sombra e sem forma bem definida que passam e escutam o grito e continuam, rumo a uma vitória cega e esses gritos se tornam apenas mais uma obra de arte, mas desta vez desconhecida e sem valor algum que, certamente, não haverá nenhum pintor para registrar essas angústias e muito menos poderá ser exposta em algum museu de arte, devido a sua desvalorização. No máximo, os alheios permanecerão em sua sombra, com medo de mostrar a sua real face, a face que habita o interior de cada um.

Vivemos internalizando nossos problemas como uma panela de pressão. A fumaça tenta sair, tenta sair, mas muitas vezes não consegue, e a pressão que deveria ser de fora para dentro, acaba ocorrendo de dentro para fora. A integralidade do ser se torna miserável, como se desfizesse em pedaços, mas continuando intacto apenas por protocolo.

Será que haverá eternos doentes ou problemáticos em busca da saúde, esta como uma deusa inalcançável, até mesmo àqueles que morrem? Como o mito de Sísifo abordado por Camus, buscando eternamente algo que sempre traz de novo ao início, em um ciclo, configurando algo inalcançável. Então não espere que qualquer definição classifique sua saúde, pois esta somos nós que a fazemos, construindo a nossa felicidade e sem prejudicar o próximo.

Onde está a saúde então? Guardada debaixo da cama, na torre de uma igreja, no fundo de um rio marginal todo poluído? Onde? Parece que a saúde está em algum lugar, ou melhor, em algo que está ausente em nossa essência humanesca: no próprio amor, um grito mudo que todos carregam sem ao menos escutá-lo, pelo menos uma vez.

Sara Oliveira de Carvalho Loss colaborou com o São Carlos em Rede

Fonte imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Grito#/media/Ficheiro:Edvard_Munch_-_The_Scream_-_Google_Art_Project.jpg