Descoberta arqueológica na região de Araraquara revela vestígios humanos mais antigos da América do Sul

Descoberta na região de Araraquara revela vestígios humanos mais antigos da América do Sul
Descoberta na região de Araraquara revela vestígios humanos mais antigos da América do Sul

Uma nova descoberta arqueológica realizada na região de Araraquara pode mudar o que se sabe sobre os primeiros habitantes das Américas. Pesquisadores da UNICAMP, da USP, de museus do interior paulista e de universidades do Brasil e dos Estados Unidos encontraram artefatos com mais de 20 mil anos em escavações nos municípios de Rincão e Boa Esperança do Sul, no interior de São Paulo.

As análises foram realizadas em três laboratórios diferentes e confirmaram a idade dos materiais, que incluem centenas de artefatos de rocha lascada e amostras de solo. Segundo os cientistas, essa é uma das datações mais antigas já registradas em toda a América do Sul, com evidências claras de que os objetos foram produzidos por seres humanos, e não por processos naturais.


Descoberta arqueológica reforça importância do interior paulista

Os artefatos são os mais antigos já datados com clareza no Sudeste e Sul do Brasil e colocam o interior paulista no centro do debate científico sobre a ocupação das Américas. Diferentemente de outros sítios sul-americanos com datações semelhantes, os materiais encontrados em Rincão e Boa Esperança do Sul apresentam uma associação direta com as camadas do solo datadas, o que torna a descoberta especialmente robusta.

O estudo aprofunda pesquisas anteriores na região, revelando níveis de ocupação humana até 10 mil anos mais antigos do que os já conhecidos nesses locais.


Pesquisa também analisa clima, relevo e impactos urbanos

A descoberta faz parte da tese de doutorado do geógrafo Pedro Michelutti Cheliz, defendida em 2024 no Instituto de Geociências da UNICAMP, sob orientação do professor Francisco Ladeira. Com 1.458 páginas, o trabalho — intitulado “A Terra, a técnica e o tempo: da rocha lascada às enchentes urbanas – um estudo na Antiga Araraquara” — é a tese mais extensa já registrada na história da universidade e finalista do Prêmio Nacional de Teses Aziz Ab’Saber, da União da Geomorfologia Brasileira. Entre os avaliadores da tese, inclui-se o ex-secretário de planejamento urbano de Araraquara e professor Luis Falcoski, da UFSCAR.

Além de revelar vestígios da pré-história, a pesquisa analisa como o território regional foi moldado ao longo do tempo. O estudo mostra que a ação humana, inicialmente adaptativa às condições naturais, tornou-se ao longo dos milênios uma força transformadora do meio. Hoje, segundo os pesquisadores, as mudanças provocadas pelas atividades humanas geram alterações no relevo até 70 vezes mais intensas do que aquelas ocorridas em períodos pré-históricos.


História regional reinterpretada

A pesquisa também relaciona marcos históricos de Araraquara às transformações ambientais do território. Conflitos como o assassinato dos Britos e projetos urbanos de figuras históricas como Bento de Abreu, Lupo, Medina e De Santi são reinterpretados à luz das mudanças no clima e no relevo local.

Para isso, foram consultadas obras de autores regionais como Anna Martinez Correa, Magdalena, Rodolpho Telarolli e Alberto Lemos, além de pesquisas da UNIARA.


Colaboração entre instituições

A pesquisa envolveu a colaboração de várias instituições, como o Museu de Arqueologia e Paleontologia de Araraquara (MAPA), a Fundação Araporã, a Universidade de Pernambuco (UPE), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FURG) e a Universidade de Washington (EUA). Participaram diretamente da pesquisa o geólogo Paulo Giannini (USP), e os arqueólogos Robson Antonio Rodrigues (Fundação Araporã) e João Carlos Moreno de Sousa (FURG).


 Acesse a tese e os artigos publicados

Tese completa:
A Terra, a técnica e o tempo: da rocha lascada às enchentes urbanas – um estudo na Antiga Araraquara
 Acesse aqui (ResearchGate)

Artigos científicos publicados:

Divulgação institucional:

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