Dívida paga com sangue

Noite fria e silenciosa, com a lua cheia pairando no céu como um olho impassível a observar o mundo abaixo. O vento sussurrava entre as árvores nuas, carregando consigo o cheiro de terra úmida e folhas podres. Em uma rua deserta, à beira de uma floresta densa, uma casa antiga e decadente se erguia, sua estrutura curvada pelo tempo e pelo abandono. Era ali que ele esperava.

Dentro da casa, sentado em uma poltrona desgastada, estava Victor, um homem de meia-idade, com olhos fundos e mãos trêmulas. Ele sabia que não poderia escapar. A dívida havia sido contraída há muito tempo, em um momento de desespero, e agora era hora de pagar. O ar na sala parecia pesado, como se a própria casa estivesse segurando a respiração.

A porta rangiu lentamente, e Victor sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele não precisava olhar para saber quem havia entrado. A presença era inconfundível — uma aura gelada que fazia o coração bater mais rápido e a mente se encher de pensamentos sombrios.

— Victor — a voz era suave, quase um sussurro, mas ecoou pela sala como um trovão. — Sabia que eu viria.

Victor levantou os olhos e viu o vulto alto e esguio se aproximando. O vampiro, conhecido apenas como Elias, tinha uma aparência que misturava elegância e terror. Seus olhos eram como carvões incandescentes, e seu sorriso revelava dentes afiados que brilhavam à luz da lua que entrava pela janela quebrada.

— Eu… eu não tenho o que você quer — gaguejou Victor, suas mãos apertando os braços da poltrona.

Elias riu baixinho, um som que parecia vir das profundezas de um abismo. — Todos têm algo a oferecer, Victor. Você sabe disso. A dívida foi contraída com sangue, e com sangue será paga.

Victor sentiu o suor escorrer por suas têmporas. Ele se lembrou daquele dia, anos atrás, quando Elias o salvou de uma morte certa. Na época, ele achara que estava fazendo um bom negócio. Agora, percebia o quão tolo havia sido.

— Eu posso conseguir mais tempo — implorou Victor, sua voz trêmula. — Só me dê mais uma chance.

Elias inclinou a cabeça, como se considerasse a proposta, mas seu sorriso cruel deixava claro que a decisão já havia sido tomada. — O tempo acabou, Victor. Você teve sua chance. Agora, é hora de cumprir sua parte no acordo.

Antes que Victor pudesse reagir, Elias se moveu com uma velocidade sobrenatural, aparecendo diretamente à sua frente. Suas mãos, frias como o gelo, envolveram o pescoço de Victor, imobilizando-o. Victor tentou gritar, mas o som morreu em sua garganta.

— Não se preocupe — sussurrou Elias, seus lábios próximos ao ouvido de Victor. — Será rápido. Mas não indolor.

Victor sentiu os dentes afiados perfurarem sua pele, e uma dor aguda se espalhou por seu corpo. Ele tentou lutar, mas suas forças se esvaiam rapidamente. A escuridão começou a envolver sua visão, e ele sentiu sua vida sendo sugada, gota por gota.

Quando Elias finalmente se afastou, o corpo de Victor estava pálido e sem vida, seus olhos ainda abertos, congelados em uma expressão de terror. Elias limpou os cantos da boca com um lenço branco imaculado e olhou para o cadáver com indiferença.

— A dívida está paga — murmurou ele, antes de se virar e desaparecer na noite.

Dias depois, a casa foi encontrada por moradores da região. O corpo de Victor estava ainda sentado na poltrona, seu rosto uma máscara de horror eterno. Ninguém soube explicar o que havia acontecido, mas todos sentiram uma sensação de mal-estar ao se aproximar do local. A casa foi abandonada novamente, e logo caiu em ruínas.

Mas, em noites de lua cheia, dizem que um vulto alto e esguio pode ser visto entrando na casa, como se estivesse à procura de algo — ou de alguém. E aqueles que ousam se aproximar demais ouvem sussurros vindos de dentro, como se a própria casa estivesse contando a história de um homem que não conseguiu pagar sua dívida.

E assim, o cobrador da noite continua sua busca, eternamente insatisfeito, eternamente faminto.

Esta é uma obra de ficção.