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Dois anos e um semáforo em São Carlos

São Carlos tem dessas coisas. É uma cidade grande o suficiente para guardar segredos, mas pequena demais para impedir reencontros.

Foram dois anos.

Setecentos e tantos dias em que ele aprendeu a fingir que a vida havia seguido normalmente. Mudou alguns hábitos, passou por ruas diferentes, conheceu pessoas novas e até sorriu de verdade algumas vezes. Mas há sentimentos que não aceitam ser arquivados. Apenas ficam em silêncio, esperando um acaso.

E o acaso sempre conhece o caminho.

Era fim de tarde. O trânsito seguia preguiçoso, como costuma acontecer quando a cidade começa a voltar para casa. O semáforo fechou. Ele olhou distraidamente para a calçada. Foi então que a viu.

A ruiva.

O cabelo continuava daquele mesmo tom impossível de ignorar. Caminhava sem pressa, olhando para frente, como quem carregava apenas as preocupações daquele dia. Talvez nem imaginasse que, do outro lado da avenida, um coração tivesse acabado de esquecer como se bate.

Ele reconheceu cada detalhe em poucos segundos. O jeito de andar. A postura. O leve movimento dos cabelos quando o vento resolveu aparecer.

Ela também o viu.

Os olhos se encontraram apenas por um instante.

Nenhum sorriso.

Nenhum aceno.

Nenhuma palavra.

O sinal abriu.

Os carros voltaram a andar, mas ele permaneceu parado por dentro.

É curioso como dois anos podem não significar absolutamente nada para certas lembranças. O tempo envelhece fotografias, muda endereços, troca empregos e transforma prioridades. Mas há pessoas que continuam ocupando exatamente o mesmo espaço na memória.

Ela seguiu seu caminho.

Ele também.

Separados por poucos metros e por um silêncio que parecia ter quilômetros.

Talvez ambos tivessem coisas a dizer. Talvez nenhum tivesse mais.

Há reencontros que não acontecem para recomeçar histórias. Acontecem apenas para confirmar que elas nunca terminaram completamente.

Naquela noite, São Carlos continuou igual.

As luzes da Avenida São Carlos acenderam. Os bares receberam seus clientes. A Catedral seguiu iluminando o centro. A cidade não percebeu que, por alguns segundos, dois destinos voltaram a caminhar lado a lado.

Sem conversa.

Sem despedida.

Sem final.

Porque alguns amores não acabam. Apenas aprendem a viver em lados diferentes da mesma cidade.

E, às vezes, basta um semáforo fechado para lembrar que o coração nunca esqueceu o caminho de casa.

Por Geraldo Augusto, estudante universitário.

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