
Transformar pesquisa em impacto social concreto é um dos objetivos que movem o doutorando Rafael Zinni Lopes, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Criador da Timbrasom, uma tecnologia que permite que pessoas surdas ou com baixa audição consigam sentir a música na palma da mão, ele acaba de ser selecionado para participar do Leaders in Innovation Fellowships (LIF) Programme 2026, iniciativa da Royal Academy of Engineering, no Reino Unido.
O programa reúne pesquisadores e empreendedores de diferentes países que desenvolvem tecnologias inovadoras com potencial de impacto social e econômico. Em 2026, uma das áreas prioritárias da iniciativa é justamente a de tecnologias assistivas e inclusivas, campo no qual se insere a pesquisa desenvolvida por Rafael. “Para mim, essa seleção representa um símbolo de confiança no meu trabalho. Isso vai trazer mais credibilidade ao projeto, principalmente quando eu for buscar parcerias internacionais”, afirma o pós-graduando.
Os participantes da iniciativa estão recebendo treinamentos online em temas como liderança, inovação, inteligência artificial aplicada a negócios e desenvolvimento de parcerias. Além disso, o programa inclui uma viagem para o Reino Unido, prevista para ocorrer entre os dias 20 de junho e 6 de julho. Durante esse período, os pesquisadores terão encontros com especialistas, visitas a empresas e universidades parceiras, incluindo a University College London, e atividades voltadas à internacionalização de projetos de inovação. Todas as despesas da viagem serão financiadas pelo programa. Rafael diz que irá aproveitar a viagem para estabelecer parcerias. “O Reino Unido é uma referência em faculdades que estudam tanto a música como as línguas de sinais e tecnologias para surdos. Então, pretendo fazer muito networking”, conta.
A Timbrasom funciona diretamente na palma da mão do usuário. Depois de baixar o aplicativo, o celular passa a vibrar em diferentes padrões, acompanhando o ritmo da música ou os sons que estão sendo reproduzidos. Para Rafael, a tecnologia amplia as possibilidades de interação de pessoas surdas com o mundo. “Poder entender o mundo não só através de uma imagem, por exemplo, uma pessoa sorrindo, uma pessoa nervosa, mas sim através das sensações que ele está sentindo pela pele a partir da vibração”, destaca o pesquisador.
Doutorado no ICMC
Embora o Timbrasom tenha sido criado antes do doutorando Rafael entrar para o programa em Ciência da Computação no ICMC, a pesquisa acadêmica busca aprimorar a tecnologia empregada. Sob orientação do professor João Luís Garcia Rosa, Rafael quer entender como o cérebro de surdos interpretam as vibrações musicais geradas pelo sistema. O doutorando ressalta que a ideia de desenvolver a pesquisa no ICMC surgiu após conversar com a professora Kamila Rios da Hora Rodrigues, que lhe trouxe elementos importantes. “A mãe dela é surda e, por isso, ela entende bem a importância desse tipo de pesquisa. Foi ela quem me deu orientações sobre como eu poderia conduzir o trabalho utilizando a terminologia da área de Interação Humano-Computador (IHC) e articulando isso com a linha do meu orientador, que atua na área de neurociência”, explica.
Como parte da pesquisa, o pesquisador pretende realizar experimentos utilizando eletroencefalograma (EEG), exame capaz de registrar a atividade elétrica do cérebro por meio de sensores posicionados no couro cabeludo. A partir desses registros, o objetivo é analisar os potenciais elétricos gerados pelos neurônios quando participantes, surdos e ouvintes, são expostos a estímulos sonoros ou vibratórios. A análise desses sinais permite compreender como o cérebro processa informações relacionadas ao ritmo, à intensidade e a outros padrões presentes na música, contribuindo para avaliar o potencial da tecnologia desenvolvida nesta pesquisa como ferramenta de acessibilidade para pessoas com deficiência auditiva.
O pesquisador explica que aguarda a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa para iniciar a próxima etapa do estudo, que será realizada com uma comunidade de São Paulo conhecida como Batuqueiros do Silêncio. O grupo é formado por pessoas surdas que aprenderam a tocar música por meio de uma metodologia própria. “Eles são músicos surdos, e isso nos permite investigar como o cérebro deles funciona em comparação ao de pessoas surdas que não têm formação musical e ao de músicos ouvintes”, explica Rafael.
O doutorando destaca, porém, que ainda enfrenta desafios relacionados ao equipamento de eletroencefalograma disponível para a pesquisa, que já apresenta desgaste em algumas peças e não oferece o nível de conforto ideal para os participantes da pesquisa. “Meu orientador já tentou solicitar recursos para a aquisição de um equipamento mais moderno, mas ainda não conseguimos. Enquanto isso, estou tentando realizar pequenos reparos para viabilizar os experimentos”, relata.
Um dos produtos que Rafael pretende desenvolver após defender sua tese será a aplicação da Timbrasom em implantes cocleares e aparelhos auditivos. De acordo com ele, esses aparelhos, que são implantados cirurgicamente no ouvido interno de pessoas surdas, não são eficazes para músicas. “Estou em contato com pesquisadores internacionais para entender profundamente por que esses dispositivos não são bons para ouvir música e como o meu software pode preencher essa lacuna”, salienta.
Texto: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica


benefícios para a população que paga impostos e torna possível a existência de universidades públicas”, afirma Rafael Zinni Lopes | (Crédito da imagem: Arquivo pessoal)

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