Drink: A triste vida de uma alcoólatra

Álcool e suicídio: estudo aponta relação/Foto: Marcelo Camargo/Ag.Brasil

Não acredite no tempo. Ele é um traidor contumaz das vontades humanas. Ecoando por seus pensamentos estavam lamúrias do tempo que passou do amor que não deu certo e da vida que ficou no passado. Betinha insistia em não acreditar que sua vida tinha mudado. Deixou para trás aquilo que não poderia mais lhe causar problemas, o vício do álcool.

Aos 45 anos era uma falsa sóbria entre os mortais corretos. E só assim poderia continuar seguindo sua caminhada para o fim. Via a morte como propósito de vida, espaço de manifestação das luzes no meio das trevas humanas, para ela, ultimamente, tão pesadas e sagazes, como os mais lindos sonhos libertários.

A bebida lhe fez perder tudo. Casa, comida, trabalho, amor, família e si própria. Tinha sido considerada desenganada por aqueles que tentam recuperar esse tipo de pessoa. Acreditava que tinha sobrevivido por sorte do destino que resolveu lhe dar um sorriso no apagar das luzes de uma história tão esburacada quanto uma mentira mal contada.

A vida de Betinha era um fosso ou pelo menos ela achava isso. Depois de tanto beber, os alimentos não tinham mais gosto, mesmo limpa do álcool sentia que estava num eterno porre de sentimentos, pois a todo instante lhe surgiam às brigas em casa, as louças quebradas, os furtos de dinheiro para comprar mais bebida; sua reserva de mercado, aquele álcool escondido dentro do lavatório do banheiro para uma situação de emergência. Da vez em que bebeu perfume recordava mais do que quando o Brasil ganhou sua última Copa do Mundo em 2002.

Para Betinha, um minuto, apenas 60 segundos, sentada numa praça admirando a paisagem e o passar dos carros e das pessoas, sentindo o calor do sol no rosto e o vento lhe desarrumando os cabelos, eram tão longos como uma dose do uísque mais nobre da adega de qualquer um. Nesse minuto, Betinha conseguia ver tudo sempre de maneira disforme. Um filme lhe passava pelo olho, ela queria apagar o arquivo, dar um ctrl + alt + del, porém não conseguia, o computador sempre travava. As terapias para a mudança de pensamento, o tal foco que o tratamento psiquiátrico buscava lhe dar funcionava por pouco tempo. Depois de minutos, a situação insana de sua cabeça já estava a palpitar como um furúnculo que dói querendo romper a pele da pessoa para deixar o pus se esvair e a dor passar.

Betinha vivia numa tormenta. Tinha saído da clínica de reabilitação, sabia que não iria mais beber, mas tinha a certeza de que não seria mais convidada para nenhuma festa, todos tinham medo que tivesse uma recaída e voltasse a ser a barraqueira angustiante que tanto havia aprontado no passado. Certa vez, chegou a atear fogo numa casa durante um pileque numa festa. Os bombeiros fizeram um grande esforço para controlar as chamas que praticamente destruíram um apartamento na Vieira de Barros, prejuízo grande para os seus familiares que ficaram com a conta. E olha que Betinha tinha ido à festa a convite de um amigo do aniversariante. Obviamente,  o dono da casa não a queria nem pintada de ouro em sua frente.

Voltou a morar com os pais, estava à base de calmantes, pois tentava controlar a ansiedade. Fazia trabalhos manuais, aprendeu a lidar com o crochê, construía peças muito bonitas porque tinha uma criatividade que desbravava mundos e chegava a outras galáxias, todavia ela durava pouco tempo, pois sempre retornava para o mundo das sombras onde sua alma tinha repousado.

Lembrava do tempo em que bebia à vontade. Queria molhar a garganta, dar um bico, espalhar numa festa, mas hoje lhe faltava coragem. Os dois cortes no pulso, marcas que ficaram de uma tentativa de suicídio, serviam como cabrestos para segurar sua sanha por tomar álcool. Betinha era uma prisioneira de sua própria vida, uma impossibilitada, incapaz de se esmerar para conseguir o que realmente queria. Pensava que viver assim, não era viver. Um estado vegetativo consciente, fomentado por suas próprias decepções.

Não tinha mais medo de não conseguir retomar sua vida normal. Sempre pensava: “Que vida?” Depois que conheceu o álcool aos 12 anos através de um tio que sempre lhe permitia tomar um “golinho” do seu copo, Betinha vivia para beber e achava que a bebida vivia para lhe servir.

Em sua formatura de colegial bebeu tanto que no meio do baile, saiu carregada pelos maqueiros da ambulância que dava plantão no salão, isso sem contar o show que promoveu antes de deixar o local subindo no palco e arrancando a roupa. Falou mole ao microfone, e esculhambou um monte de gente, inclusive seus pais. Ainda naquele discurso disse para todo mundo, antes de ser impedida pelo mestre de cerimônias, que não era mais virgem, pois havia transado com o Rodolfo, seu companheiro de classe.

Betinha ainda era bela nesse período. Tinha cabelo bonito, olhos verdes e um corpo razoável. Mas o álcool a secou de tal forma que ficou parecendo um espectro de si mesmo, boca chupada, cabelos brancos e pelancas para todos os lados. Numa dessas idas com sua mãe ao supermercado (um de seus únicos passeios), depois que saiu da clínica, reencontrou Rodolfo, pessoa que não via há pelo menos 20 anos, mas ele preferiu mudar de corredor e a deixar sozinha. Betinha queria apenas um oi, se sentir normal, num reino onde todo mundo a tratava como diferente, queria somente dizer que estava tudo bem, mesmo não estando. Queria sentir, por pouco tempo, o gosto da sanidade careta que conduz essa sociedade hipócrita, e nem isso conseguiu.

A sociedade? Betinha não ligava para a sociedade. Em suas condições nem tinha como saber o que pensavam sobre ela. Apenas imaginavam que todos os que haviam convivido consigo no passado quando a viam achavam que a “bêbada” estava chegando. A mente de quem passa por um choque tão grande ou que tem uma vida traumatizante vive pregando peças em seus donos. Betinha lembrava de alguns, esquecia de outros e isso servia para suavizar, mesmo que um pouco, as vergonhas colecionadas ao longo de sua “carreira” como alcoólatra.

Todo dia vinha um sufoco no peito, uma dor no coração, as mãos tremiam,  era uma crise de pânico diária. Ninguém se recupera de nada, pensava Betinha, as pessoas apenas tendem a continuar no seu mundo com mais ou menos intensidade. O mundo de quem passou por grandes traumas era pequeno, e sufocante e Betinha tinha a exata noção de que não poderia sair dele.

Numa noite, teve os habituais pesadelos que tanto a incomodavam. Acordou e notou que sua mãe havia esquecido seus remédios no seu quarto.  Um lapso de uma mulher de 70 anos, algo compreensível. Ela estranhou, porque a velha  não voltava mais e um alcoólatra não pode viver no limiar dos erros de uma senhora de cabeça fraca. Comprimidos? Era o drink que ela esperava.

Betinha não titubeou, agarrou o frasco e o abriu, era sua chance de se libertar desse mundo cruel. De apagar as luzes e de dormir num sono eterno e sair do outro lado (?), sabe-se lá de que jeito. Ela olhou para o primeiro comprimido, segurou-o firme, mas estranhamente o deixou sobre sua penteadeira, aos pés de  um diário que tinha sido aberto pela última vez há pelo menos 15 anos.

Não quis tomar. Por um momento focou a mente em viver mais (daquele jeito?), em permanecer por aqui. A lucidez decididamente era para malucos. Levantou, agarrou os comprimidos e os jogou na privada do banheiro. Dormiu mais um pouco, teve uma série de pesadelos e acordou com seu pai gritando no quarto ao lado. Reuniu forças, levantou e entrou no aposento. Viu o pai chorar sobre o corpo da mãe, ela não tinha esquecido de retirar o remédio, mas sim enfartado de maneira fulminante.

O contraste da vida é agonizante. Quem quer viver morre, quem vive, vegeta.

Texto de Renato Chimirri