E se a juventude de hoje descobrisse o footing de São Carlos?

Será que daria certo? São Carlos já foi assim/Foto: Fundação Pró-Memória

Imagine a cena.

É domingo, cinco horas da tarde. Um rapaz de 18 anos, acostumado a passar boa parte do dia olhando para a tela do celular, recebe um convite absolutamente estranho:

— Vamos fazer um footing na praça?

Ele arregala os olhos.

— Um o quê? É algum aplicativo novo? Tem que baixar?

Não, meu jovem. Não precisa baixar nada. Aliás, seria interessante deixar o celular em casa. O footing funcionava sem internet, sem senha, sem algoritmo e, principalmente, sem a possibilidade de bloquear alguém.

Era preciso comparecer pessoalmente.

E aqui começa nossa viagem no tempo.

Durante décadas, especialmente em cidades do interior como São Carlos, o domingo tinha um compromisso quase sagrado para a juventude. Depois do almoço em família, chegava a hora de tomar banho, escolher a melhor roupa, pentear cuidadosamente os cabelos e seguir para o centro.

O destino era a praça.

Ali acontecia um dos mais extraordinários fenômenos de socialização que a humanidade já inventou: o footing.

As moças caminhavam em grupos, conversando, sorrindo e observando discretamente os rapazes. Os jovens, por sua vez, circulavam ou permaneciam estrategicamente posicionados, esperando uma oportunidade de aproximação.

Tudo tinha seu código.

Um olhar poderia significar interesse. Dois olhares, uma esperança. Um sorriso, então, era praticamente uma declaração de amor.

Agora imagine nosso jovem de 2026 participando dessa experiência.

Ele chega à praça e imediatamente pergunta:

— Cadê o Wi-Fi?

Não tem.

— Mas como vou saber se aquela menina está solteira?

Perguntando, meu filho.

— Perguntando pessoalmente?

Exatamente.

O rapaz sente um pequeno arrepio. Aquilo lhe parece mais perigoso do que enfrentar uma prova de matemática sem calculadora.

Ele observa uma moça passando com duas amigas. Ela olha em sua direção. Ele imediatamente procura o celular para verificar se recebeu alguma notificação.

Não recebeu.

O olhar era a notificação.

E não havia como deixá-lo arquivado para responder três dias depois.

No footing, a vida acontecia em tempo real.

Se a moça passasse novamente e repetisse o olhar, o coração começava a trabalhar mais depressa. Era o momento de criar coragem, ajeitar a camisa e tentar uma conversa.

Não existia a possibilidade de pesquisar previamente seus gostos, descobrir suas fotografias de férias ou investigar quem havia curtido suas últimas publicações.

Era necessário conhecer a pessoa conversando.

Uma verdadeira aventura.

E havia outro detalhe que deixaria a juventude atual completamente desconcertada: ninguém sabia quantas pessoas tinham visto você naquele domingo.

Não existiam visualizações, curtidas ou compartilhamentos.

Mas existia algo muito mais poderoso: a expectativa.

O rapaz passava a semana inteira pensando naquela moça que havia encontrado no domingo anterior. Talvez ela voltasse. Talvez usasse aquele vestido bonito. Talvez, finalmente, aceitasse conversar.

E quando chegava o domingo seguinte, ele estava lá.

Pontualmente.

Não porque o celular tivesse disparado um lembrete, mas porque o coração tinha uma memória extraordinária.

São Carlos viveu esses tempos.

Tempos em que a praça era uma espécie de universo particular da juventude. Os encontros aconteciam sob as árvores, entre conversas, passos lentos e olhares que muitas vezes diziam mais do que longas cartas.

E quantos namoros não começaram assim?

Quantos casamentos, quantas famílias, quantas histórias que atravessaram gerações não nasceram de um simples olhar durante uma caminhada de domingo?

Talvez aquele senhor de cabelos brancos, sentado hoje tranquilamente em sua casa, tenha conhecido a esposa exatamente dessa maneira.

Ela passou.

Ele olhou.

Ela sorriu.

E, sem que nenhum dos dois soubesse, uma história de cinquenta anos estava começando.

Nosso jovem de 2026 provavelmente acharia tudo muito demorado.

— Mas eu preciso esperar até domingo para encontrar a menina de novo?

Sim.

— E se ela não aparecer?

Você espera mais uma semana.

— Isso é um absurdo!

Talvez seja.

Mas existe uma beleza imensa nessa espera.

A tecnologia encurtou distâncias, acelerou conversas e colocou milhares de pessoas ao alcance de um dedo. Podemos conhecer alguém em segundos, conversar com pessoas de outros continentes e até começar um relacionamento sem jamais ter dividido o mesmo espaço.

Entretanto, em algum momento dessa revolução, talvez tenhamos perdido um pouco da delicadeza de esperar.

O footing não era perfeito. Havia timidez, desencontros, rejeições e corações partidos. Também existiam regras sociais e comportamentos próprios de uma época que, felizmente, mudaram.

Mas havia algo que continua fazendo falta: a disposição de estar presente.

De olhar nos olhos.

De conversar sem pressa.

De descobrir alguém aos poucos.

Imagino nosso rapaz moderno voltando para casa depois de experimentar seu primeiro footing.

A mãe pergunta:

— E aí, gostou?

Ele responde, tentando disfarçar um sorriso:

— Até que foi legal.

— Conheceu alguém?

— Conheci uma menina.

— Pegou o Instagram dela?

— Não.

— O WhatsApp?

— Também não.

— Então como vai encontrá-la novamente?

Ele olha pela janela, pensa alguns segundos e responde:

— Domingo que vem vou voltar à praça.

E talvez seja justamente aí que esteja a grande lição.

Porque, naquela tarde, o jovem descobriu uma coisa que nenhum aplicativo consegue ensinar completamente:

Há encontros que não precisam de conexão com a internet. Precisam apenas de duas pessoas, um pouco de coragem e a vontade de se ver novamente.

E se as árvores das antigas praças de São Carlos pudessem falar, certamente contariam milhares dessas histórias.

Histórias de rapazes nervosos, moças sorridentes, amizades eternas e amores que começaram com um olhar.

Naquele tempo, ninguém precisava perguntar se havia sinal.

O sinal vinha dos olhos.

E, quando era correspondido, meu amigo, a conexão era para a vida inteira.