E se naquela cidade todos estivessem mortos?

  • Este texto é uma ficção, um conto.

Ninguém se lembrava exatamente de quando começou o silêncio. Era uma cidade vibrante, diziam, cheia de risos nas janelas e buzinas impacientes. Mas agora, embora os carros ainda circulassem, embora os cafés ainda servissem tortas e expressos fumegantes, tudo soava… abafado. Como se um cobertor invisível, denso e úmido, tivesse sido lançado sobre os telhados e becos.

O carteiro batia nas portas, mas ninguém respondia. Ainda assim, ele deixava as cartas, cuidadosamente, como sempre. Nas escolas, os alunos recitavam os versos de livros que pareciam ecoar de dentro da terra. E à noite, quando os postes acendiam com um estalo metálico, as pessoas assistiam a um noticiário onde as imagens congelavam e os apresentadores piscavam em sincronia milimétrica.

Ninguém estranhava. Era como se fosse assim desde sempre.

Mas havia algo nos olhos. Sim, os olhos. Cinzentos, fundos, e sempre vagando um pouco além do horizonte visível, como se olhassem através das paredes, das ruas e do próprio tempo.

Foi uma criança — se é que ainda podia ser chamada assim — quem primeiro percebeu. Ela se debruçava todos os dias sobre o poço seco no centro da praça. Um buraco profundo, lacrado por grades enferrujadas. “Ouço vozes lá embaixo”, dizia. A mãe, uma mulher com a pele pálida demais para viver sob o sol, apenas sorria sem mover os lábios.

Certa noite, a criança jogou uma pedra no poço. Esperou pelo som do impacto. Nada. Nem eco. Nem respingo. Apenas um vácuo opaco, como se a pedra tivesse sido engolida por algo que não queria ser nomeado.

Na manhã seguinte, todos estavam reunidos ao redor do poço. Era estranho: ninguém combinara aquilo. Apenas sentiram que precisavam estar ali. O prefeito, vestindo um terno de décadas atrás, pigarreou e disse:

— É chegada a hora.

Ninguém perguntou o quê. Sabiam. Sabiam agora.

Estavam mortos.

Tinham morrido. Não naquele momento. Não ontem. Há tanto tempo que nem as datas importavam. Havia sido uma doença, ou talvez uma explosão, ou um erro de cálculo de um laboratório obscuro. Mas estavam todos ali, presos num ciclo de gestos vazios, em um reflexo pálido do que um dia foi viver.

E o pior: sabiam que não havia para onde ir.

Então alguém — talvez o padeiro, talvez o dentista — ergueu uma tocha. Uma chama trêmula no ar parado. Outro o imitou. E outro. Quando perceberam, a cidade estava coberta por pontos de fogo, como estrelas invertidas.

— Vamos terminar com isso — disse a professora do ensino primário, empunhando um galão de gasolina.

A cidade queimou em silêncio. Nenhum grito. Nenhum choro. As casas arderam como se fossem feitas de papel de jornal. O poço, por fim, derreteu as grades e engoliu as cinzas.

Mas… e aqui mora o horror que resta: na manhã seguinte, o carteiro voltou a bater nas portas. A fumaça ainda subia do chão enegrecido. As crianças voltaram às escolas. E à noite, os postes se acenderam com um estalo metálico.

Porque na Cidade dos Mortos, nem o fogo é capaz de trazer fim.

E tudo recomeça. De novo. E de novo. Para sempre.