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Edite, a investigação e o direito de voltar para casa

Edite, a investigação e o direito de voltar para casa

Edite, a investigação e o direito de voltar para casa

O inquérito sobre a morte da motorista de aplicativo Edite Alves Bomfim chegou ao fim. A Polícia Civil de São Carlos reuniu imagens, dados da corrida, informações fornecidas pela plataforma, laudos periciais e outros elementos para reconstruir os acontecimentos daquela noite de setembro em São Carlos.

É importante reconhecer esse trabalho.

Investigar um crime dessa gravidade significa procurar respostas onde, inicialmente, existe apenas dor e perplexidade. Significa transformar vestígios em provas, confrontar versões, reconstruir trajetos e entregar à Justiça elementos para que ela cumpra seu papel.

Mas talvez a conclusão do inquérito também seja o momento de olhar para além do próprio inquérito.

Porque Edite não pode se transformar apenas em mais um número na estatística da violência.

Ela tinha 50 anos. Trabalhava. Entrou em seu carro para exercer uma atividade absolutamente comum: transportar pessoas de um ponto a outro da cidade. Como fazem diariamente milhares de motoristas em São Carlos e milhões pelo Brasil.

Ela deveria ter voltado para casa.

Essa talvez seja a frase mais simples e, ao mesmo tempo, mais dolorosa de toda essa história.

Edite: ela deveria ter voltado para a casa

O trabalhador de aplicativo vive uma situação peculiar. Seu instrumento de trabalho também é um espaço privado no qual desconhecidos entram durante todo o dia — e, muitas vezes, durante toda a madrugada. A tecnologia aproxima motorista e passageiro em segundos, mas não elimina completamente a vulnerabilidade de quem está ao volante.

E aqui é preciso evitar uma discussão simplista.

Segurança não pode significar colocar passageiros sob suspeita permanente. Da mesma maneira, não podemos ignorar o medo de motoristas que trabalham à noite, em áreas afastadas ou realizando viagens para locais que desconhecem.

Também existe o outro lado.

Passageiras mulheres entram em carros conduzidos por desconhecidos e muitas vezes compartilham a localização da viagem com familiares. Homens e mulheres já foram vítimas de violência durante corridas. Motoristas também foram assaltados, agredidos e mortos.

Portanto, a discussão necessária não é escolher quem merece proteção.

Todos merecem.

Motoristas precisam de mecanismos mais eficientes de segurança. Passageiros também.

Plataformas precisam continuar aperfeiçoando identificação, rastreamento, compartilhamento de viagens, mecanismos de emergência e cooperação rápida com as autoridades quando ocorre um crime.

O poder público precisa compreender que esses profissionais fazem parte da realidade das cidades e que políticas de segurança também precisam considerar quem passa horas circulando pelas ruas.

E a sociedade precisa exercitar algo que nenhuma tecnologia consegue instalar em um telefone: empatia.

É muito fácil abrir um aplicativo, solicitar um carro e enxergar apenas um pequeno ícone se movimentando pelo mapa.

Mas aquele ícone é uma pessoa.

Pode ser uma mãe tentando completar a renda da família. Um pai trabalhando depois do expediente. Um aposentado buscando uma renda extra. Uma mulher que encontrou no aplicativo uma forma de independência. Um jovem tentando pagar a faculdade.

Do outro lado também existe uma pessoa esperando chegar ao trabalho, ao hospital, à faculdade ou simplesmente voltar para casa.

Humanizar essa relação não resolverá sozinho o problema da violência. Mas talvez seja um começo importante para entendermos o tamanho da responsabilidade coletiva envolvida.

No caso de Edite, a investigação policial conseguiu reconstruir os últimos passos da motorista e apontar responsabilidades. Aos investigados devem ser assegurados os direitos previstos pela lei, e caberá à Justiça analisar as provas e decidir sobre a responsabilização criminal.

Esse é o funcionamento de uma sociedade civilizada: investigar, produzir provas, garantir defesa e julgar.

Não vingança.

Justiça.

À Polícia Civil, fica o reconhecimento pelo trabalho de investigação realizado em um caso complexo e doloroso. Aos demais agentes de segurança que participaram das buscas e das diligências, o reconhecimento por uma atividade que muitas vezes significa entrar em contato diariamente com aquilo que a sociedade tem de mais difícil.

Policiais também são seres humanos.

Por trás de distintivos e uniformes existem profissionais que precisam comunicar mortes a famílias, encontrar cenas que ninguém gostaria de presenciar, ouvir relatos terríveis e, ainda assim, manter a serenidade necessária para produzir provas que poderão decidir o destino de outras pessoas.

Cobrar eficiência das instituições é necessário. Fiscalizá-las também.

Reconhecer quando fazem seu trabalho igualmente é.

Mas nenhuma investigação, por mais eficiente que seja, consegue devolver uma vida.

Por isso, talvez a principal reflexão deixada pelo caso de Edite não esteja apenas naquilo que aconteceu naquela estrada rural.

Está naquilo que precisamos fazer para que histórias semelhantes não aconteçam novamente.

Precisamos falar de segurança para mulheres.

Precisamos falar de segurança para homens.

Precisamos falar de motoristas.

Precisamos falar de passageiros.

Precisamos cobrar responsabilidade das plataformas, políticas públicas das autoridades e investigação rigorosa das forças policiais.

Mas precisamos, principalmente, voltar a enxergar pessoas onde a rotina digital nos acostumou a enxergar apenas usuários.

Toda vez que alguém aceita uma corrida, existe uma pessoa trabalhando.

Toda vez que alguém entra naquele veículo, existe uma pessoa confiando sua segurança a outra.

Nenhum trabalhador deveria iniciar seu expediente imaginando que talvez não volte para casa.

Nenhum passageiro deveria entrar em um carro carregando esse medo.

O inquérito sobre a morte de Edite terminou.

A discussão que a morte dela nos impõe, porém, não deveria terminar com ele.

Porque segurança pública também é isso: permitir que alguém saia para trabalhar e tenha o direito mais elementar de todos ao final do dia.

Voltar para casa.

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