Ele falou com seu filho que morreu há três anos

Numa dessas noites como tantas outras, ou pelo menos era assim, Daniel tentava convencer a si mesmo. Três anos haviam se passado desde que Antônio, seu filho, partira após uma longa e dolorosa batalha contra uma doença rara. A dor da perda nunca havia desaparecido; ela apenas se transformara em uma companheira silenciosa, um peso que ele carregava no peito todas as manhãs ao acordar. Mas naquela noite, algo diferente aconteceu.

Daniel adormeceu como de costume, exausto após mais um dia de trabalho e de tentativas frustradas de seguir em frente. No entanto, em vez de cair em um sono pesado e sem memórias, ele se viu em um lugar que não reconhecia imediatamente. Era um campo aberto, banhado por uma luz suave e dourada, como o sol no final da tarde. O ar era fresco, e o silêncio era quebrado apenas pelo canto distante de pássaros. Ele olhou ao redor, confuso, até que ouviu uma voz que o fez parar de respirar.

— Pai!

Era a voz de Antônio. Doce, clara, exatamente como ele se lembrava. Daniel virou-se rapidamente e lá estava ele, seu filho, correndo em sua direção com um sorriso largo no rosto. Antônio parecia saudável, cheio de vida, como nunca o havia visto nos últimos meses de sua vida. Seus olhos brilhavam, e seus cabelos estavam desarrumados, como sempre ficavam depois de uma brincadeira.

— Antônio… — Daniel mal conseguia falar, suas pernas tremiam enquanto se ajoelhava para abraçar o filho. O abraço foi real, sólido, quente. Ele sentiu o cheio do cabelo de Antônio, o calor de seu corpo, o riso que ecoava em seu peito. Era real. Tão real que Daniel não queria soltar.

— Pai, eu estou bem — disse Antônio, afastando-se um pouco para olhar nos olhos de Daniel. — Eu estou feliz aqui. Não precisa se preocupar mais comigo.

Daniel tentou falar, mas as palavras não saíam. Em vez disso, sentiu lágrimas quentes escorrendo pelo seu rosto. Antônio sorriu novamente, aquele sorriso que sempre conseguia acalmar o coração de Daniel.

— Eu só queria que você soubesse que eu estou bem, e que você precisa seguir em frente. Não pode perder a esperança, pai. O futuro ainda tem coisas boas para você.

— Mas como? — Daniel finalmente conseguiu falar, sua voz rouca de emoção. — Como eu posso seguir em frente sem você?

Antônio colocou uma mão pequena e quente no rosto de Daniel.

— Porque eu sempre estarei com você. Aqui — ele apontou para o coração de Daniel. — E porque você ainda tem muita vida pela frente. Acredite, pai. Acredite no futuro.

Daniel acordou com um sobressalto, sentindo o rosto molhado pelas lágrimas. O quarto estava escuro, e o silêncio da noite era quase opressivo. Por um momento, ele ficou parado, tentando entender o que havia acontecido. Foi um sonho? Parecera tão real… o abraço, a voz, o olhar de Antônio. Tudo estava tão vívido em sua mente.

Ele se levantou e foi até a janela, olhando para o céu estrelado. A dor no peito ainda estava lá, mas agora havia algo mais. Uma pequena faísca de esperança, algo que ele não sentia há muito tempo. Antônio estava certo. Ele não podia desistir do futuro. Havia ainda tanto por viver, tanto por fazer. E, de alguma forma, ele sabia que Antônio estaria sempre com ele, em seu coração, em suas memórias, em cada momento de alegria que ele ainda pudesse encontrar.

Daniel respirou fundo, sentindo o ar fresco da noite enchendo seus pulmões. Ele não sabia o que o futuro reservava, mas pela primeira vez em três anos, ele sentiu que poderia enfrentá-lo. Porque Antônio estava certo: a esperança nunca deveria ser perdida. E, enquanto ele olhava para as estrelas, Daniel prometeu a si mesmo que seguiria em frente, carregando o amor de seu filho em cada passo do caminho.

E, naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, Daniel dormiu em paz.

Renato Chimirri