Eles conversavam apenas pelo “olhar do celular”

Baseado em um fato real*

A amizade é eterna! Nunca vou deixar de falar com você! Você é meu melhor amigo (a)! Essas são frases fortes que devem ser pensadas muito bem antes de sair de nossa boca. A amizade é um negócio sério, doce e complicado, porque pressupõe uma forma de amar que é sem medida. O amigo é aquele que aponta o que está errado, mas com ternura, que mostra o caminho a ser seguido, que apanha pela gente, mas que continua firme, ali, sempre demonstrando como se deve agir.

Um amigo de verdade nunca deixa o outro no sereno, jamais se esquece de responder uma mensagem, de dar um alô, de mostrar um afeto ou então de simplesmente dizer um “eu te amo”. É isso mesmo, amigo também diz ao outro ou outra que ama a pessoa e esse, com certeza, é o melhor que amor que podemos ter, porque é sincero, desinteressado e não pede nada em troca.

Um dia dois amigos,  um jovem e uma senhora, que se conheceram pela internet começaram a conversar, trocaram experiências, confidências e perceberam que tinham muitos pontos em comum. Eles se entendiam pelo “olhar do celular”, era como se tivessem sido feitos um para o outro naquela relação de amizade.

Foram meses de conversa, de troca de mensagens, de amizade sincera e honesta, até que resolveram tomar um sorvete.

Num dia da semana passada eles combinaram pelo WhatsApp que iriam se encontrar em uma sorveteria da cidade.

O rapaz se deslocou chegou, uma hora antes, e ficou esperando. Sentou na cadeira, tomou pequeno sorvete e começou a conversar com sua amiga, perguntou como estava seu dia e ela foi lhe contando o que fazia naquele momento: regrava as plantas, cuidava do quintal, fazia o café e isso no prazo de toda a conversa, com alguns “offs” momentâneos.

O papo fluía tanto entre os dois que eles continuaram conversando e o jovem contou que iria ao banco, depois estudaria à tarde e à noite teria aulas na universidade. Até que em dado momento, ele fez a pergunta fatal: “Combinamos as dez, eu tomei um sorvete, um pequeno café e você ainda não chegou!”

A mulher lhe respondeu: “Como não cheguei? Faz uma hora que estou aqui falando com você, ouvindo que será feito do seu dia, enquanto isso você aprecia um saboroso café, eu não irei ao barzinho, nossa amizade é apenas virtual!”

Aquilo cortou o coração do jovem. Foi um baque, um tapa na cara, um soco no estômago, algo que ele nunca havia pensado. A pessoa com quem ele mais se identificava no momento era alguém que não queria vê-lo e isso era triste. Um reflexo desses dias frios que vivemos hoje e olha que pontes foram construídas durante um tempo para a marcação desse encontro, mas infelizmente ele nunca aconteceu.

O rapaz saiu melancólico do encontro virtual que aconteceu numa sorveteria do Centro de São Carlos.

Andou por toda a avenida São Carlos, viu que tinha inúmeras mensagens de outros contatos em seu WhatsApp, mas não respondeu à nenhuma delas. A sua cabeça não aceitou que a amiga idealizada não queria nenhum contato físico, mesmo que esse se resumisse a apenas um breve café e um “olho no olho”.

Não foi à aula, não estudou, não viu o tempo passar, apenas apreciou a tristeza, coisa que ele sabia fazer muito bem.

Naquela mesma noite, sem conhecer sua amiga, sentou na Praça Catedral onde chorou copiosamente a rejeição que lhe imputaram.  E só conseguiu lembrar de determinada parte do livro “O Pequeno Príncipe”:

E foi então que apareceu a raposa.

__ Bom dia – disse a raposa.

__ Bom dia – respondeu educadamente o pequeno príncipe, que , olhando a sua volta, nada viu.

__ Eu estou aqui – disse a voz, debaixo da macieira…

__ Quem és tu? – perguntou o principezinho. __ Tu es bem bonita…

__ Sou uma raposa – disse a raposa.

__ Vem brincar comigo – propôs ele. __ Estou tão triste…

__ Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. __ Não me cativaram ainda.

__ Ah! desculpa – disse o principezinho.

Mas após refletir, acrescentou:

__ O que quer dizer “cativar”?

__ Tu não és daqui – disse a raposa. __ Que procuras?

__ Procuro homens – disse o pequeno príncipe. __ Que quer dizer “cativar”?

__ Os homens – disse a raposa – têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?

__ Não – disse o príncipe. __ Eu procuro amigos. __ Que quer dizer “cativar”?

__ É algo quase sempre esquecido – disse a raposa. __ Significa “criar laços”…

__ Criar laços?

__ Exatamente – disse a raposa. __ Tu não és nada para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E Não tenho necessidade de ti. E tu também não tem necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo…

Renato Chimirri

Imagem de Free-Photos por Pixabay