Em São Carlos “são três mortos”, os que negam a doença só sentirão a dor quando for alguém da sua própria família

São Carlos: mortes por COVID19 são três

São só três mortos em São Carlos, mas ontem o Brasil registrou 125.218 casos de coronavírus, 8.536 mortes e 615 óbitos em apenas um dia. O que me espanta nessa terrível situação foi uma correspondência que recebi ontem numa das plataformas do portal com a seguinte frase: “Em São Carlos são só três, e daí?”

Isso mesmo, a frase que virou símbolo negativo nos últimos dias feriu como uma faca. Ocorre que a dor de uma das famílias eu pude presenciar bem de perto, vi quando a triste notícia foi dada e acompanhei todos os momentos de dor pelos quais eles passaram e ainda passam, sei bem como está sendo quase impossível retomar a rotina e tentar seguir em frente, até porque a pandemia não passou e ainda demorará um tempo para acabar, ou seja, o assunto está presente no cotidiano de cada um diuturnamente.

É verdade que são poucos óbitos em São Carlos pela COVID-19, mas para que mantivéssemos medidas de isolamento social para evitar um colapso no sistema de saúde seria necessário que fossem 100 mortes? 200? Que gente louca que torce por carnificina, não? Que povo maluco que compartilha notícia de enterro falso, não? Ora senhores, sei bem que estão morrendo pessoas de acidente (recentemente um operário faleceu na cidade), por causa de crimes como um assassinato (infelizmente tivemos um ontem), por diabetes, infarto, AVC. Essas mortes não pararam, porém nas doenças citadas a COVID-19 se estiver junto pode ser um fato que leve o paciente ao óbito ainda mais rápido. Se tivermos muitos pacientes com COVID-19 o sistema de saúde que tem poucos leitos de UTI pode colapsar e assim pessoas com outras doenças poderão ficar sem atendimento. Não me conformo que gente que se diz decente e Cristã não compreenda isso e não perceba o tamanho da enrascada em que estamos metidos.

Quando morriam 600, 700, 800 pessoas na Itália víamos muitos dizendo: “Coitados, tem que fechar tudo mesmo!” Agora, com 615 mortes em 24h no Brasil o discurso de alguns malucos é: “A economia não pode parar, 615 mortes não são nada!” Diante desse circo dantesco me pergunto: onde falimos como sociedade?

Já disse aqui: a quarentena é chata, estou profundamente entediado, de saco cheio, mas ela é necessária pelo nosso bem e de outras pessoas que amamos. Além do que, a quarentena pode ajudar na retomada, se ela for respeitada, será com maior velocidade a retomada das atividades, basta olhar o exemplo da Alemanha, da Itália e outros países europeus. Sem o respeito ao isolamento, isso não seria possível a eles.

Para finalizar, faço minhas as palavras do Willian Bonner, no dia de ontem, no Jornal Nacional:

“Você já nem deve lembrar, mas na quinta passada eram 5.901 mortos. Os números vão aumentando desse jeito, cada vez mais rápido, vão dando saltos. E vai todo mundo se acostumando, porque são números. Um número muito grande de mortes de repente, num desastre, sempre assusta. As pessoas levam um baque. Oito mil vidas acabaram. Eram vidas de pessoas, amadas por outras pessoas. Pais, irmãos, filhos, amigos, conhecidos. Aí o luto dessas tantas famílias vai ficando só pra elas, porque as outras pessoas já não têm nem como refletir sobre a gravidade dessas mortes todas, que vão se acumulando todo dia…hoje, são oito mil e quinhentas. Amanhã, a gente não sabe. Quando é assim, o baque só acontece quando quem morre é um parente, um amigo, um vizinho ou uma pessoa famosa”.

Renato Chimirri