Encontrou a morte às 17h

O relógio da torre da igreja marcava 16:58 quando Eduardo acordou. Ele não sabia como tinha chegado ali, deitado no banco de madeira rachada da praça central da cidade. O céu estava cinza, não era o cinza das nuvens carregadas de chuva, mas um cinza opaco, como se o sol tivesse desistido de brilhar há muito tempo. Ele se levantou devagar, sentindo o peso do corpo como se carregasse uma âncora invisível nos ombros.

A praça estava deserta, o que era estranho para uma tarde de quarta-feira. Eduardo olhou em volta, tentando se orientar. As árvores pareciam mais altas do que ele lembrava, seus galhos retorcidos se estendendo como dedos ossudos em direção ao céu. O chão estava coberto por uma névoa fina que subia até seus tornozelos, e ele teve a sensação de que, se olhasse para baixo por muito tempo, ela o engoliria.

16:59.

Ele começou a caminhar em direção à rua principal, onde costumava haver movimento. As lojas estavam fechadas, as portas encardidas e as vitrines empoeiradas. Através dos vidros, ele via sombras se movendo, formas indistintas que pareciam observá-lo. Eduardo acelerou o passo, mas não importava o quão rápido ele andasse, as sombras estavam sempre lá, nos cantos de seus olhos, seguindo-o.

17:00.

O som do relógio da torre ecoou pela cidade, grave e solene. Eduardo parou. Algo estava errado. O ar parecia mais pesado, como se o tempo tivesse parado junto com o badalar do relógio. Ele olhou para as mãos e viu que elas estavam pálidas, quase translúcidas. Quando levantou a cabeça, viu uma figura ao longe, em pé no meio da rua.

Era um homem de terno preto, com um chapéu de aba larga que escondia seu rosto. Ele não se movia, apenas ficava ali, como uma estátua. Eduardo sentiu um frio percorrer sua espinha. Ele tentou gritar, mas a voz não saiu. Tentou correr, mas suas pernas não respondiam.

O homem de terno começou a andar em sua direção, devagar, cada passo ecoando como um trovão distante. Eduardo tentou se mover novamente, mas era como se estivesse preso em um sonho, onde o corpo não obedece à mente. O homem parou a alguns metros dele e levantou a cabeça lentamente.

Debaixo do chapéu, não havia rosto. Apenas um vazio escuro, como um buraco que sugava toda a luz ao redor. Eduardo sentiu uma dor aguda no peito, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dele. Ele olhou para baixo e viu que sua camisa estava manchada de vermelho, o sangue escorrendo em fios finos até o chão.

O homem de terno estendeu a mão, e Eduardo sentiu uma força irresistível puxando-o para frente. Ele tentou lutar, mas era inútil. Seus pés arrastaram-se pelo chão, deixando marcas na névoa. Quando ele chegou perto o suficiente, o homem de terno sussurrou algo, uma palavra que Eduardo não conseguiu entender, mas que ecoou em sua mente como um sino.

E então, tudo ficou escuro.


Eduardo acordou novamente no banco da praça. O relógio da torre marcava 16:58. Ele olhou em volta, a névoa ainda estava lá, as sombras ainda o observavam. E lá, ao longe, o homem de terno esperava.

Morto às 17h. Sempre às 17h.

Essa é uma obra de ficção.